quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Fim do II Capitulo

(Continuação)


Estou morta.
Será que ainda te lembras de mim?
Será que ainda te lembras de como fomos felizes? Infantilmente felizes?
Eu lembro-me…
Aliás, não tenho feito outra coisa ultimamente senão lembrar-me do que passou.
Diz-se que não é saudável viver no passado, que devemos antes concentrarmo-nos no futuro, mas como morta acho que não tenho grande futuro, e o meu presente também não é grande coisa. Só me resta o passado como consolo duma tristeza que não sinto, duma frustração que não é minha.
A maior parte das pessoas quando envelhece diz que desperdiçou os melhores anos da sua vida. No entanto, quando perguntamos o que gostariam de ter feito, não sabem o que responder. Deus, como são estúpidos! Passam tanto tempo a queixarem-se do que não fizeram, que não lhes sobra tempo para fazerem alguma coisa, aqui, agora!!!
Como eu não tenho mais nada para fazer agora, e tenho toda a eternidade pela frente, bem posso recordar à vontade.
Recordo-te a ti…
Meu Anjo de Olhos Tristes…
Conseguiste alterar por completo a minha vida. Fizeste-me gostar, fazer, pensar… coisas que nunca me tinham passado pela cabeça. Mas eu gostava… gostava muito. Quase tanto como gostava de ti. Só mesmo tu para conseguires que eu fizesse coisas do género: comer mil-folhas quando não tinha fome, apanhar bebedeiras descomunais, deitar-me tarde, baldar-me às aulas, lixar-me para os estudos…Para falar a verdade não sei se foste tu quem me fez fazer todas aquelas coisas, mas foste certamente tu quem me deu coragem para as fazer. Contigo podia ser quem eu realmente era. O que eu pensava ser…
Tão parecidos…
Nesta vida não fomos mais que dois erros que pensaram que ao juntarem-se se anulariam e tornariam certos.
Contigo não consegui mais que afundar-me até ao pescoço na lama da desgraça.
Mas também conseguir subir às nuvens…
Sometimes…
Tão parecidos…
Um dia perguntaram-te como eras realmente, para definires a tua personalidade. Eu respondi por ti: “Ele não existe, ele é apenas o que os outros querem que ele seja”. E tu concordaste.
Nesse momento descobri tudo sobre ti. Descobri quem realmente eras. Eras eu. Descobri que bastava conhecer-me a mim para te conhecer a ti também.
Tão parecidos…

Por vezes imagino o que estarás a fazer neste momento, mas não consigo imaginar nada de decente.
Houve uma vez que eu te imaginei numa enorme catedral, maravilhosa, realizando a tua maior fantasia sexual. Ainda te lembras?... “Ser possuído por duas vampiras em cima de um altar”… Eras deliciosamente pervertido.
Por vezes imagino-te com outra rapariga…. Fico completamente descontrolada. Só a ideia faz-me confusão. Eu não consigo seque suportar a ideia de que possas gostar de outra rapariga. Mas gostas… certamente gostas.
Chamaste-me possessiva…
Acho que até nisso acertaste.
Podes vir a gostar de muitas outras raparigas, morar com elas, casar-te… talvez…no entanto… merda! Nem consigo explicar o que realmente sinto! Acho que a humidade enferrujou o meu cérebro! “Cérebro?!... Qual cérebro?!” Pois é… A verdade é que por mais raparigas, mulheres, velhas que cruzem o teu caminho, podes estar certo quer nenhuma te vai adorar como eu te adorei.
Eu teria dado a minha vida por ti sem pensar duas vezes, e mesmo assim…tu roubaste-ma…até a vida me roubaste.

Estou a atravessar uma fase de confusão.
Acho que todos os mortos têm esse direito de vez em quando.
Para mal dos meus pecados (que não são poucos), consigo ouvir tudo o que se passa à superfície. O barulho que as pessoas fazem quando vêm visitar os outros mortos, o barulho das pás a escavarem novas sepulturas, o choro aflitivo dos familiares dos mortos…
Tudo…
Mas o que tem incomodado mais tem sido uns saloios de uns bêbedos que têm vindo gozar a pedrada sobre a minha sepultura. Apesar da desarrumação que eles fazem, do barulho, e das vezes que eles vomitam, eu até que nem me posso queixar muito. Pouco a pouco eles tornaram-se numa forma de companhia. A minha única forma de companhia.
Ao todo consigo diferenciar cinco vozes. São todas masculinas e pelo tom de voz e pelas conversas pouco maduras posso deduzir que não devem ter mais que dezoito ou dezanove anos.
Ainda me lembro da primeira vez que eles vieram.
Aqui em baixo é um pouco difícil distinguir o dia da noite, mas sei que eles vieram de noite. Comecei por ouvir passos que à medida que se foram aproximando se tornaram mais pesados e ruidosos, como o tropel de cavalos de corrida. De repente dois corpos caíram pesadamente sobre a minha sepultura. Jarras para o chão, barulho de vidros partidos… Merda!! O que aquilo me enervou naquela altura!... Quem seriam aqueles anormais que me andavam a foder a campa?! Já não bastava o facto de estar morta, ainda tinha que aturar aquele bando de animais a estragarer-me a decoração da casa!
Os atrasados não paravam de rir. Um dos que tinha caído sobre a lápide disse:
“ Merda… Fodi as costas trodas!”
“Eu também, man, …acho que até no cú tenho cacos de vidro!”
“Levantem-se daí! Deixem o pobre coitado descansar em paz! Não acham que já beberam demais?!”
“Olh’ó betinho! És um cortes, meu!”
“Hei, deixa ver o velho que aí está enterrado! Passa aí o isqueiro, man!”
“Iá, ‘bora ver!”
Fez-se um momento de silêncio. Eles deviam estar a ver a minha fotografia, coisa que não me agradou nada.
Naquele momento só me apetecia aparecer à frente deles e pregar-lhes um cagaço que eles nunca mais esquecessem, mas não pude… Merda!! Porque é que podemos tudo menos sair daqui?!
De qualquer forma os comentários não se fizeram esperar:
“ Iá man, é uma gaja!”
“Iá man, até nem era má de todo…”
“Hei, vê aí que idade é que ela tinha quando bateu as botas.”
“ Eh pá! Sabes bem que não sou bom a fazer contas de cabeça…”
“Chama aí o betinho, ele deve saber.”
“Ó puto, chega aqui! Anda cá ver esta gaja!”
“ Vocês são uns doentes! Vamos mas é embora! Daqui a nada vai amanhecer… É a isto que vocês chamam uma noite divertida?!”
“Não curtes cemitérios, é?”
“Não, não curto!”
“Eh pá, diz só a idade da gaja!”
Mais um momento de silêncio, mas este foi ainda mais curto que o anterior.
“Então pá?!”
“Ía, man… o betinho ‘tá gamado aí na….”
“É parvo ou quê?! Ela morreu com dezasseis anos… vamos mas é embora!”
Foram-se embora… Fiquei sozinha.
Durante bastante tempo fiquei a pensar naquela estranha visita.
Em seis meses ninguém me tinha visitado, excepto a minha mãe.
Nem mesmo tu… Coisa que nem estranho, não é?!
Eram cinco rapazes… Quatro com um Q.I. inferior ao de um tijolo, e um outro que até apresentava algumas características humanas.
Foi exactamente nesse que eu fiquei a pensar mais tempo.
Não sei por quê…
Não sei se sabes, mas estar-se morta é uma merda, especialmente quando se está só.
E aquele rapaz preocupou-se comigo… Deu-me atenção…

Uma coisa que me enerva aqui em baixo é perder a noção do tempo com muita facilidade. Não sei ao certo quanto tempo se passou, mas sei que não foi muito, até que finalmente os rapazes voltaram.
Eles conseguiram ser detestavelmente previsíveis. Chegaram da mesma forma ruidosa, estavam novamente bêbedos e destruíram mais um pouco da minha sepultura.
“Ìa meu, …caímos em cima da tal gaja!” “Iá meu, acho que é por causa dela que o meu irmão não quis vir. Apanhou um trauma, ou essas merdas…”
“ Merda meu, …acho que bebi demais… meu, ‘tou aqui, ‘tou-me a gregar todo!...”
E gregou-se mesmo!
Acho que eu mesma, só pela ideia dele lá em cima a vomitar-se todo, me apeteceu vomitar também. Eram realmente nojentos!
Mas mesmo assim eram a minha única companhia…
Agora também já conhecia a voz do irmão do rapaz. Como é estranho… dois irmãos, o mesmo sangue, parte dos mesmos cromossomas, e … tão diferentes.
Passaram o resto do tempo a contar piadas sem piada, a beberem, a gregarem-se, a cantar canções que também me agoniaram, a beberem, a gregarem-se, a fazer barulho, a gregarem-se… enfim, os cromos mais pareciam anorécticos crónicos, tantas foram as vezes que eles vomitaram.
Fiquei triste com a ausência do rapaz. Gostaria que ele tivesse vindo, poder ouvir a sua voz, mas ele não veio… Não veio nessa noite, nem nas que seguiram. O rapaz nunca mais veio com os atrasados mentais.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

II Capítulo

II Capítulo

Ultimamente a solidão tem sido difícil de suportar.
Eu, que adorava estar só, afogar-me nos segundos hiper-concentrados, embriagar-me com o silêncio, começo a ficar farta.
Nada…
Nem os vermes se deram ao trabalho de me vir visitar.
AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!
Este silêncio ensurdecedor está a levar-me à loucura! Nada… Apenas este rectângulo de madeira apertado e malcheiroso, a porcaria das rendas que me fodem constantemente os olhos, e este silêncio… esta escuridão monótona, este ar pesado que nem ar é… Nada! Eu daria tudo para voltar aí acima…
Voltar a fazer todas aquelas coisas que me faziam feliz. Dançar… Sentir o ar fresco a bater-me no rosto… Envolver-me no sorriso das crianças… Comer doces impulsivamente… Rebolar na relva molhada… Gritar… Sentir aquela felicidade ingénua que quase nos leva às lágrimas.
É tarde demais…
Consegui perder o que tinha de melhor…
Correcção!!1
Tu roubaste-mo!
Cabrão! Amo-te…

“ Amo-te”. Acho que deve ser das palavras mais foleiras do vocabulário. “Amo-te” é como a palavra “ Deus”. Diz-se tantas vezes e em tantos contextos, que perde o significado por completo. Torna-se banal. Diz-se sem sentimento, como as preposições ou os determinantes. Torna-se uma palavra como qualquer outra…
Eu nunca a disse.
Sentia-a, mas nunca a disse. Talvez por ser tão importante para mim, nunca me atrevi a pronunciá-la. Tinha medo. Podia dar azar…
Tu também não.
Ainda bem.
Penso que se o tivesses dito eu não acreditaria.
Uma coisa que eu aprendi é que as palavras só estragam. Não há nada mais revelador, mais confidencial que o silêncio. Cinco segundos de silêncio podem dizer mais que uma vida de diálogo. Talvez porque usamos mal as palavras. Esgotamo-las, dissecamo-las em situações que não são mais que uma completa chachada. Apenas palavras… Sem significado, sem sentimento, sem conteúdo, sem alma… apenas palavras.
(continua...)

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Continuação do I Capítulo

Se é verdade que os nossos cromossomas determinam o que vamos ser, então eu quero saber quem foi o cabrão que fabricou os meus para exigir um reembolso.
É azar a mais para uma pessoa só!!!!!!!
Nasci na altura errada, na família errada, na cidade errada, no país errado, no continente errado, no planeta errado, na galáxia errada e acho que nem na porcaria do Universo acertei. Mas pronto… Isso até se poderia aceitar. Agora nascer com os cromossomas errados?!!! Isso é azar a mais!!! Definitivamente!!!
Não sei ao certo o que pensas da tua vida, mas a minha sempre foi uma merda! Especialmente a partir do momento que passaste a ser o centro gravitacional dela. Porquê? Porque é que tinhas que a invadir assim?! Eu, que sempre tinha estado no meu cantinho, sossegadinha no meu canto, lixando tudo à medida que os segundos passavam. Mas ao menos lixava tudo porque queria. Tinha consciência do que fazia.
Apareceste.
Confusão. Caos. Desastre nuclear. Bomba atómica.
Cabeça explode.
Coração pára.
Porquê?!
Porquê essa necessidade de me confundir e pôr sombras na alma?
Confessa? Tu adoravas quando eu te idolatrava. Adoravas todos os meus miminhos, todas as minhas atenções. E especialmente adoravas poder desprezar-me pois estavas certo de que bastaria estalares os dedos para que eu voltasse para ti a abanar o rabinho.
Ego…
Nunca antes tinha conhecido um ego como o teu. O maior, o mais exuberante, o mais poderoso… Enfim, acho que muitos rapazes gostariam de ter uma pila como o teu ego.

O Despertar da Primavera…
Quando penso em primavera lembro-me sempre daquele gajo que já morreu… Vivaldi, creio eu. Não sei porquê. O desabrochar das plantinhas, …as abelhinhas e os passarinhos e as abelhinhas a foderem que nem animais, …os caçadores a acertarem-lhes na peida… A Primavera com todos os seus encantos.
A primeira vez que te vi…
Quando se diz “ a primeira vez que te vi” pensa-se: “ quando te conheci”, mas é mentira. As pessoas associam assim as palavras porque a maior parte delas não vê o mundo onde vive, apenas olha para ele. Mas eu vi-te… E nunca mais tirei os olhos de ti.
Babei-me. Arfei. Gani. Ladrei. Urinei. Beijei um gay.
Apaixonei-me. E para sempre fiquei apaixonada.
Foi daquelas coisas que só nos dão uma vez na vida pois se dessem duas, matar-nos-iam.
Almas gémeas.
Não sei explicar como era, mas nem mesmo dois gémeos siameses a partilharem a mesma cabeça conseguiam ser tão parecidos. Nós não éramos parecidos, éramos iguais. Os mesmos gostos, o mesmo olhar perdido e cínico de quem espera o que nunca vem… Dizias: “ Odeio pessoas cínicas!” Estranho… Normalmente odiamos os nossos próprios defeitos.
Duas semanas de conhecimento, intimidade, e… fiquei completamente apanhada.
Vício…
Tive todos os vícios que se possam imaginar, mas nenhum tão absorvente como tu.
Tu. Eu. Nós. A mesma pessoa.

Não sei porquê, mas sou uma pessoa que associa muito os cheiros às situações. Para mim cada momento tem que ter um cheiro. Naquela altura tudo cheirava como a espuma que punhas no cabelo. Cheiro a espuma barata, mas que era indispensável para conseguires domá-lo.

O que será a atracção entre duas pessoas?
Já inventaram muitas teorias sobre o assunto, mas nenhuma me conseguiu convencer. Nada me convence para dizer a verdade. Só acredito naquilo que vejo, que sinto, que vivo… E estar atraída por ti era algo… como dizer… qualquer coisa como… estar atraída por ti!!!!
Podia estar cinco horas seguidas a olhar para ti sem me cansar. Mas também podia desviar os olhos cinco segundos depois.
Nenhum dia era igual ao outro.
Esqueci a palavra rotina.
Ignorei o resto do mundo.
Ri-me da cara da desgraça.
Fiquei a arrotar a felicidade para o resto da vida.
Pena que tenha sido por pouco tempo.

Um livro...

Os textos seguintes pertencem a uma livro que eu escrevi algures entre os meus dezassete e os meus dezanove anos. Um nascimento de parto doloroso, complicado e difícil. A primeira crítica foi que não estava mauzito, talvez bom para as donas de casa passarem tempo. Se se conseguirem lembrar de algo pior para dizer, por favor não se acanhem e partilhem.
Ou então, se também vocês escreveram algo tão mau e achem que nenhuma editora é digna de lhe deitar a mão, partilhem também. Vamos mostrar ao mundo a nossa falta de talento!!!!!!




I Capítulo


Estou morta…
E perguntam-me vocês: “ Ah sim?!! Então, ó totó, como é que estás a escrever? Tornaste-te numa vampira ou morta-viva?” E eu respondo: “Sei lá!”
A verdade é que eu não acredito nessas merdas. Só me permito acreditar naquilo que vejo, ou sinto, ou… e neste momento sinto que estou morta. É estranho, eu sei, mas este mundo está cheio de coisas estranhas e tentar compreendê-las não seria mais que um exercício de estupidez da nossa parte. Eu, por exemplo. Nunca me dei ao trabalho de compreender nada, talvez porque eu própria sempre fui um ser imcompreendido.
Agora, que estou neste estado por assim dizer diferente, gostaria de poder mudar tudo. Mas é tarde demais.
Dizem que nunca é tarde demais para nada, mas diz-se muita coisa e quase nada corresponde à realidade. Afinal, que sabem eles da morte? Nada!! Nada de nada! A maior parte dos tansos que dizem essas merdas não passam duns frustrados, que se tentam agarrar a qualquer coisa, quanto mais não seja à futilidade das próprias palavras.
Eu por mim, tentei agarrar-me a outra coisa, mas também não deu muito resultado. Mas isso é uma outra história…
Neste momento gostaria de voltar a viver. Só por alguns instantes, o suficiente para me poder suicidar. Gostaria de poder ter uma morte mais digna, mas não creio que existam mortes dignas. Apenas morte. Só sei que não me queria matar como essas histéricas que tomam comprimidos e merdas desse género, normalmente inofensivos, mas que elas acham muito “in” e lhes permite darem um pouco nas vistas.
Li em qualquer lado que só 25% das mulheres que tentem o suicídio atingem o objectivo. Pudera!!! Como poderiam morrer se não fazem mais que tomar comprimidos para as dores menstruais, anti-alérgicos ou andarem para aí a provar produtos de limpeza?! Até na morte são piegas!!! Nunca escolhem nada que faça sofrer. Aposto que a maior parte delas são donas de casa procurando um pouco de atenção por parte dos maridos. Pena quer algumas se enganem e batam mesmo as botas.
Eu queria morrer como um homem!!!!
Esses ao menos quando planeiam, planeiam em condições e conseguem quase sempre atingir o seu objectivo.
Homens… Palhaços… Nojentos… Testosterona de calças… Tudo sinónimos para o mesmo mal.
Homens…
Há quem pense que passei a banquete de vermes por causa de um. Ah!! Como se algum homem conseguisse tal coisa!... Mas por acaso desta vez até conseguiu.
Não me lembro ao certo do seu nome… Poderia ter sido qualquer um. Afinal o nome nunca diz nada… Ou talvez diga tudo… De qualquer forma não me consigo lembrar. Ou talvez não me queira lembrar.
Era lindo… Cabelo que fazia lembrar uma esfregona velha, olhos que mudavam de cor como as pessoas limpinhas mudam de cuecas, lábios finos e bem delineados, e um nariz…. E um nariz… E um corpo!... Ai… Ai…Conhecia cada milímetro, cada pilosidade… Seria capaz de o identificar no escuro, apenas pelo toque, com umas luvas de pêlo se fosse preciso.
Palhaço… Tudo em ti era revoltantemente perfeito, até mesmo os teus defeitos.
Adorei-te como se pode adorar um deus, o céu, as estrelas, ou um rolo de Scotex… Adorei-te… Talvez ainda te adore… Talvez te vá adorar para sempre… Mas que importa?
Nunca soube muito de ti… Mas agora gostaria de estar viva. Só para te poder matar. Por tua culpa passei os piores dias da minha vida. Também passei os melhores, mas isso em nada diminui a tua culpa. Nada te desculpa
Tu mataste-me…
Morri há cerca de dois meses. Ainda continuo uma morta jeitosa, por assim dizer. Pelos vistos os vermes ainda não foram avisados da minha presença e o meu caixão continua impecavelmente limpo. Quanto ao resto não sei bem… A minha roupa continua impecavelmente engomada, talvez porque eu sou u8~ma morta muito caseira e não gosto de andar por aí a laurear a pevide. No entanto não dou nada nem pelo meu odor, nem pela cor da minha tromba. Dizem que os mortos são brancos, mas no entanto tenho visto a minha pele mudar de tonalidade. Como os teus olhos… Começou por ser branca, é verdade, mas com o passar do tempo foi ficando ligeiramente violeta, amarelada, até que agora parece ter estacionado no verde. Como os teus olhos…
Tive uma morte lixada e a bem dizer um enterro de merda. Nem a foda do meu último desejo realizaram. Lembras-te daquelas cenas que eu dizia acerca da minha cremação e depois espalharem as minhas cinzas ao vento? ‘Tás a ver? Pois então, o meu funeral não teve nada a ver!
Tive um funeral de merda, com um padre de merda, com um acompanhamento de merda… Tu nem te deste ao trabalho de aparecer. Dizias: “ Odeio cemitérios!” Vês?!! Era por isso que eu queria ser cremada!!! Mas estar-se enterrado é bom. A terra. A chuva. A humidade que insiste em penetrar-me o esqueleto. O barulho dos outros mortos. Este cheiro repelente a cozinha do McDonalds. Estar-se morto é realmente … Bom.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

The begining is the end and the end is the begining

Este blog é para todos aqueles que pensam suicidar-se, mudar de cidade, mudar de país, assaltar um banco, violar a(o) vizinha(o) do lado, dar um tiro nos cornos do prof que mais odeiam, fazer sky-diving, para todos os que se consideram freaks, nerds, párias ou simplesmente patéticos, para os alucinados ou simplesmente alucinogénicos, para os decepcionados, revoltados, anarquistas, intervencionistas, inconformistas, narcisistas, masoquistas, sádicos, para os que têm muito a dizer e ninguém para os ouvir. Para todos vocês e de vocês, mas sempre com muita classe, claro!!!!