quarta-feira, 29 de agosto de 2007

II Capítulo

II Capítulo

Ultimamente a solidão tem sido difícil de suportar.
Eu, que adorava estar só, afogar-me nos segundos hiper-concentrados, embriagar-me com o silêncio, começo a ficar farta.
Nada…
Nem os vermes se deram ao trabalho de me vir visitar.
AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!
Este silêncio ensurdecedor está a levar-me à loucura! Nada… Apenas este rectângulo de madeira apertado e malcheiroso, a porcaria das rendas que me fodem constantemente os olhos, e este silêncio… esta escuridão monótona, este ar pesado que nem ar é… Nada! Eu daria tudo para voltar aí acima…
Voltar a fazer todas aquelas coisas que me faziam feliz. Dançar… Sentir o ar fresco a bater-me no rosto… Envolver-me no sorriso das crianças… Comer doces impulsivamente… Rebolar na relva molhada… Gritar… Sentir aquela felicidade ingénua que quase nos leva às lágrimas.
É tarde demais…
Consegui perder o que tinha de melhor…
Correcção!!1
Tu roubaste-mo!
Cabrão! Amo-te…

“ Amo-te”. Acho que deve ser das palavras mais foleiras do vocabulário. “Amo-te” é como a palavra “ Deus”. Diz-se tantas vezes e em tantos contextos, que perde o significado por completo. Torna-se banal. Diz-se sem sentimento, como as preposições ou os determinantes. Torna-se uma palavra como qualquer outra…
Eu nunca a disse.
Sentia-a, mas nunca a disse. Talvez por ser tão importante para mim, nunca me atrevi a pronunciá-la. Tinha medo. Podia dar azar…
Tu também não.
Ainda bem.
Penso que se o tivesses dito eu não acreditaria.
Uma coisa que eu aprendi é que as palavras só estragam. Não há nada mais revelador, mais confidencial que o silêncio. Cinco segundos de silêncio podem dizer mais que uma vida de diálogo. Talvez porque usamos mal as palavras. Esgotamo-las, dissecamo-las em situações que não são mais que uma completa chachada. Apenas palavras… Sem significado, sem sentimento, sem conteúdo, sem alma… apenas palavras.
(continua...)

Sem comentários: