segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Sabes que dia é hoje?

Sabes que dia é hoje?
É Natal…
“O Natal é quando o Homem quiser!”
Grande peta!
O Natal é só no dia 25 de Dezembro e é preciso ter dinheiro para isso.
Lembro-me de que quando estava viva não achava piada nenhuma ao Natal. Aliás, até me dava raiva todo aquele desperdício de electricidade nas ruas iluminadas, o sorriso estúpido no rosto das criancinhas, o instinto consumista que entrava em erupção, o “tlim” das máquinas registadoras que abriam e fechavam sem parar…
Odiava tudo isto!...
Mas sabes o que eu odiava mais? Mais do que tudo isto era o facto de passar o Natal sozinha.
Nunca tive a família toda em volta da árvore a abrir os presentes.
Ficava à espera que o Pai Natal descesse pela chaminé que não havia, mas ele nunca apareceu…
Estou a ser demasiado piegas… não ligues!
A verdade é que nem todos os meus Natais foram maus, mas dos bons eu não me consigo lembrar.
Estava sozinha…
Tal como estou agora…
É noite de Natal…
Vagueio pelas ruas desertas e iluminadas.
Cânticos de Natal vêm-me fazer companhia e trazem com eles o cheiro da comida da casa das pessoas.
Estão todas tão felizes!
E eu estou sozinha…
Tal como para um vagabundo, não existe Natal para mim. Não tenho uma casa para onde ir, não tenho um presente à minha espera, não tenho ninguém que me sorri e me deseja feliz Natal.
Mais uma vez estou só…
Não tive coragem para ir a minha casa e muito menos à tua. Seria demasiada tortura ver a tua felicidade e compará-la com a minha tristeza. Seria tortura a mais…
Acho que vou subir a um qualquer telhado e tentar esquecer o Natal…
Só por hoje…
Imaginar que estou contigo.
Que estamos nataliciamente felizes.
Imaginar que não estou só porque te tenho a ti.

Apetece-me suicidar-me...
Têm razão quando dizem que esta é uma das piores alturas do ano para os suicidas.
“Enquanto uns abrem os presentes, outros abrem os pulsos”.
É exactamente o que me apetece fazer agora.
Morrer…
Docemente…
Ao som dos cânticos de Natal…
Como um passarinho que fica preso na neve e morre aos poucos de frio.
Devagarinho…
Silenciosamente…
Protegida pelo sorriso dos outros… pelo cheiro a peru… Iluminada pelas luzes que brilham na rua.
Com aquela sensação de paz que se tem no coração quando estamos quase a adormecer…
Docemente…
Levar-te na alma…
Apetece-me morrer…
Só por hoje… voltar amanhã…
Apetece-me morrer.
Mas desta vez a sério.
Com tudo aquilo a que tenho direito.
Quero anjos… anjos que venham do céu para me buscar. Quero que venham montados em cavalos selvagens…como as valquírias…
Quero-te a ti.
Meu eterno Anjo de Olhos Tristes…
O meu Anjo…
Onde estás tu agora quando eu mais preciso de ti? Logo agora que me sinto voar e não tenho para onde ir.
É tudo tão triste…
Não! Não quero voltar a chorar!... Não vale a pena.
Sabes qual é o mal de tudo?! É a música!
São estes odiosos cânticos de Natal que as pessoas ouvem!
Acho que vou fazer o meu próprio cântico de Natal…
Só com violinos… e violoncelos.
Deitar fogo a todos eles!
Imagina como seria belo… Um Natal ao som de violoncelos e violinos em chamas…
Como seria belo o teu rosto iluminado pelas chamas…
Deus do Céu!!!
É tudo tão belo… É tudo tão triste…
Estou tão cansada…
Apetece-me morrer… Só por hoje.
O Pai Natal deixou-me um presente. A tua imagem emoldurada num pensamento breve.
Estavas tão feliz…
E eu fiquei tão feliz…
Acho que é altura de partir.
Até amanhã…


Feliz Natal Meu Doce Anjo….

XII Capitulo

Imagina como seris estar viva de novo…
É um bocado difícil…
É como imaginar alguém feio que de repente se torna bonito. É como imaginar que o Sol ilumina a noite e a Lua aquece o dia. É como imaginar que Deus afinal é um cabrão safado que se diverte a lixar a vida dos outros e o Diabo, coitadinho, afinal é o bom da fita.
Imagino todas as coisas que eu poderia estar a fazer se ainda pertencesse ao mundo dos vivos…
Lembras-te do meu riso que ecoava por todos os cantos num raio de 5 km… ou o meu ar de superioridade perante todas as forças destrutivas deste mundo… ou o meu sorriso cínico que eu generosamente distribuía por todos aqueles que eu detestava…
Lembras-te?
Imagina-me a fazer tudo isto de novo.
Sinceramente, sob este ponto de vista, acho que o mundo não perdeu nada com o meu desaparecimento.
É realmente frustrante…
Eu não fiz nada durante a minha efémera passagem por este mundo.
Em dezasseis anos de miserável existência eu não consegui fazer nada de bom, nada que marcou o mundo… Não marquei presença na vida de ninguém.
Como eu gostaria de saber se sentes a minha falta….Se te arrependeste daquilo que me fizeste… Se tens saudades do tempo em que fomos felizes…
Eu poderia saber tudo isto. Como morta tenho esse poder. Mas tenho medo… Talvez porque algo dentro de mim já conheça a resposta e eu tenha medo de a ouvir de novo.
Seria demasiado cruel para mim saber que fui apenas mais uma pessoa que cruzou o teu caminho e que ficou para trás.
Tenho medo de descobrir que afinal não fui ninguém e que nem faz sentido chamar-me “morta” pois requer existir primeiro vida para depois existir a morte.
Tenho medo de descobrir que afinal nem sequer existi…
Foi tudo um sonho…
Foi tudo um sonho…
E eu acordo de manhã na minha cama e sou alguém completamente diferente… Tu nunca exististe na minha vida…
Apenas um sonho…

“Faz um filho, escreve um livro e planta uma árvore.”
Era este o conselho que davam a quem queria deixar uma marca neste mundo.
“Faz um filho….” Não tive tempo para isso. Além do mais acho que seria uma péssima mãe, e a última coisa que eu queria era contribuir para a infelicidade de mais um ser neste planeta.
“Escreve um livro…” Neste ponto eu tentei, juro que tentei, mas eu não nasci dotada de talento e todos aqueles que eu comecei ficaram por acabar pois eram demasiado maus para terem um fim digno.
“Planta uma árvore.” Este ponto concretizei pouco tempo antes de morrer mas não me realizou em nada. Quem se lembra que um dia eu contribui para que haja mais uma ínfima percentagem de oxigénio no planeta? A memória das árvores é muito breve e dura o mesmo que uma moto-serra demora a cortá-las.
A minha vida foi um vazio…

domingo, 23 de dezembro de 2007

XI Capitulo

Nada acontece.
Nunca…
Não há sol que te queime nem chuva que dissolva a máscara da máscara que um dia criaste.
Tal como o resto da humanidade, também tu nasceste da falta de imaginação de dois amantes numa noite de insónia.
De que nos serve estarmos vivos se não para dissertarmos todas as nossas angustias?
Que nos importa saber que a vida se fenece?
De que nos serve saber que estamos vivos?
Anormalmente vivos…
O Tempo não é mais que um vazio morto entre duas coisas que acontecem.
O Tempo…
É com obsessão que o tento agarrar.
E o Tempo escapasse sempre por entre os meus dedos como grãos de areia.
O Tempo…
Antigamente aborrecia-me. Via-o como um inimigo irritante que passava por mim quando menos o queria ver.
Agora vejo-o como um amigo de longa data que eu procuro desesperadamente, mas do qual desconheço o número de telefone ou a morada.
Nada acontece…
Nunca.
O Tempo senta-se à minha frente e olha-me com olhos tristes, como se fosse um cão a pedir-me para ir à rua.
E eu sinto que tenho tempo para tudo, menos para levar o Tempo a passear
Sinto-me triste…
O Tempo nunca foi meu…



Agora estou a viver em todos os oceanos…
Finalmente descobri o que é que o rapaz fez com a minha velha carcaça.
Sem saber ele realizou o meu último desejo.
É tão estranho estar a passar por isto, e mais estranho ainda é poder contá-lo, mas…
Vi-me morta.
É uma sensação peculiar, acredita. Muito difícil de colocar em palavras pois ninguém vivo a poderá sentir.
Olhar a minha carne seca e acinzentada que já mal conseguia cobrir os ossos e os tendões, o meu cabelo estava sujo e desgrenhado, e os meus olhos… já não estavam , nas órbitas, que eram dois buracos escuros. Ali estava eu, apenas uma casca vazia, como o exoesqueleto de um insecto morto.
O que sentir num momento destes?
Foi o rapaz que trouxe o meu corpo até esta praia.
E nesta mesma praia ele fez a minha cremação.
Tive direito a um funeral celta improvisado com um equipamento desportivo dos tempos modernos. Graciosamente ele substituiu a jangada de troncos de carvalho por uma prancha de surf, e empurrou-me para longe da costa, enviando-me para o meu descanso como os antigos reis e guerreiros.
O que sobrou foram apenas as minhas cinzas que se misturaram com a espuma do mar.
Estou feliz…
Fiquei feliz com o meu fim.
Estúpido, bem sei, mas é como se a minha vida fosse uma peça de teatro à qual fui assistir, e a última cena é exactamente esta: o meu corpo a arder no meio do mar.
E quando finalmente cai o pana, eu levanto-me, aplaudo calorosamente e regresso a casa com a agradável sensação no coração de que o final da peça foi perfeito.
Quanto ao rapaz… Não sei.
A tristeza ainda habita os seus lindos olhos negros, e o vazio não se consumiu com o fogo.
Ainda assim uma parte de mim ficou com aquele rapaz.
Uma parte de mim que eu nunca esquecerei…

domingo, 16 de dezembro de 2007

Correspondências.....

Andando eu alegremente, trá-lá-lá, a arrumar as minhas merdas escolares, descobri num velho dossier, verdadeiras pérolas do humor português!!!
A verdade é que já há muito que não me ria assim.
É incrível o que o aborrecimento das aulas leva duas criaturas a fazer.
Seguem-se correspondências escolares com alguém que me faz muita falta.

I Capitulo


(…)
Sua espécie de bicha-solitária!
“ Mais vale ser bicha-solitária do que enfiar o dedo no cú para coçar uma reles e pegajosa lombriga!”
Na parte de coçar fala por ti! Tu lá sabes onde enfias o dedo ou outra coisa, não é bichona!
“Mas é por um bom motivo… É para te coçar.”
Eu sei, eu sei que tu me adoras e que a tua bunda não seria a mesma coisa sem mim!
“ Ó more, tu sem essa bichona solitária que tens dentro de ti não serias a mesma coisa, serias MAIS GORDA! Agradece-me!”
Olha bem para mim! Eu tenho ancas de quem tem uma bicha-solitária?!!! Ah!!! I don’t think so!
“E eu tenho bunda de quem te tem enfiada pelo buraco a dentro??!!! AH!! Logo tu! Isso querias tu!!!”
Bunda talvez não… mas cara tens de certeza absoluta! Esse teu sorriso de satisfação é inconfundível. Só mesmo eu para o provocar!
“Sua ténia arraçada de lombriga que nem pedigree tens!”
Pedigree têm os cães, seu lulu rafeiroso!
“Eu ao menos sou um lulu! Tu és um Chiwawa que por vezes desaparece! Oops!
(...)


II Capitulo


(…)
E tu não passas dum sapo leproso!
“Eu ao menos sou um sapo leproso, tu és um peixe semi-decomposto pelas radiações de Chernobil!”
E tu apresentas fortes semelhanças com as vacas nascidas no Japão depois da 2ª Guerra Mundial!
“Pelo menos a minha parecença é desse género. Tu tens semelhanças com os abortos de Chernobil!”
Eu tenho semelhanças, tu és o exemplo de aborto apresentado nas enciclopédias.
“Eu ao menos apareço nas enciclopédias mundiais, tu estás num museu ranhoso de aldeia onde ninguém vai ver a tua cara de peixe mal morto!”
Amiguito! Eu tenho cara de peixe mal morto, tu tiveste a sorte de ter o cheiro!
“Ao menos eu cheiro a peixe mal morto. Tu cheiras a uma pessoa com lepra no seu estado mais fedorento misturado com o suave aroma a doninha fedorenta com escorbuto!”
Eu ao menos ainda tenho doenças. O teu cheiro é tão repelente que nem os vírus se aproximam!
“De mim não se aproximam pelo cheiro, a ti deitaram-te numa vala no meio do deserto pelo teu estado de decomposição e pelo cheiro das bolhas com puz vermelho pastoso que sai dos teus olhos!”
Ridículo…Eu ao menos ainda tenho puz vermelho nos olhos… a lepra há muito que comeu os teus. Já para não falar de toda a fauna e flora que insistes em criar nos dentes…
“Sinceramente tu és patética! Fauna e flora?!! Ah!! (gargalhadas de despreso) Quem és tu para falar de fauna e flora, quando os teus sovacos empestam meio mundo com o cheiro a furúnculos mal cheirosos!”
Agora entendo porque é que passas a vida a comer cogumelos. Colhe-los na plantação privada que conservas …protegida pelos boxers.
“Não sei quem os come, se sou eu, ou… mas há quem goste! O mesmo já não se pode dizer das tuas crostas com puz que escondes por detrás da seda falsificada do mercado!”
… Já me dói o estômago… É que sinceramente… Tu cheiras mal da boca! Não me dirijas mais a caneta!
“Sinceramente duvido que a tua dor de estômago tenha origem no meu suave odor bucal, mas olha que o odor que a tua boca emana, vindo do teu estômago putrefacto é de não merecer mais resposta! Canetas cerrada!”
Graças a Deus!...Oremos irmãos!
“Ámen”

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Continuação do X capítulo

Quando a lua brilha no céu e as estrelas se reúnem em alegres constelações, costumo dançar sobre o teu telhado.
Cuido do teu sono de anjo e faço para que nenhum mel te aconteça.
Por vezes sou eu que sonho…
Imagino-te perseguindo borboletas numa floresta escura. O céu é completamente negro, mas as plantas, as flores, as borboletas emitem luz própria.
E enquanto danças com as borboletas, as criaturas da floresta vêm dançar contigo.
Soa-te familiar?
Não tem importância…
Para quê imaginação quando se tem o coração cheio de boas intenções.
Para quê imaginação, se é assim mesmo que eu te vejo: perseguindo borboletas numa noite como esta.
É dançando sobre o teu telhado que sacudo da ponta dos meus dedos as minhas lembranças de ti.
O odor a espuma do mar que tinha o teu cabelo…
As tuas mãos macias como veludo…
O brilho dos teus olhos…
O calor das tuas costas…
AS pequenas imperfeições da pele do teu pescoço…
O sabor agre e doce da tua saliva…
E quando me canso, sento-me sobre o teu telhado e bebo cada recordação como se fossem garrafinhas de licor… uma atrás da outra… até que fico tão embriagada que mal me consigo mexer.
É então que fecho os olhos e adormeço embalada pelo suave sussurro do vento, que passa pelo meu rosto como um suspiro…
É apenas paz…
É em noites como esta, em que a luz da lua é ideal e persegues borboletas no céu, que eu vou ter contigo.
É em noites como esta que eu ressuscito e volto a ser a borboleta que um dia pregaste na parede com alfinetes e lágrimas.
É em noites como esta que eu tenho a maravilhosa sensação de que o mundo é perfeito.

A chuva…
Já alguma vez reparaste na doce melodia que a chuva produz ao cair na estrada, nos passeios, nos telhados?
É lindo…
Hoje voltei a sentar-me no teu telhado e um denso cobertor de chuva veio aquecer-me.
É tudo tão lindo…
A chuva faz-me lembras as lágrimas que um dia choraste.
Lágrimas que eu nunca vi, mas que sei que derramaste.
Como a memória de uma porta já batida, o silêncio vem ter comigo. A chuva desaparece.
Aí apercebo-me de que a chuva de lágrimas era minha, mas que tu nunca serás.

Os meus pensamentos são interrompidos pelo som do teu telefone.
Corres para o atender.
Sou eu…
Como sempre sou eu…
Passamos duas horas ao telefone falando de banalidades interessantes.
A futilidade de um murmúrio intimo que circula à velocidade do som por entre os fios.
Como um deus solitário que corre por entre os claustros de uma velha catedral e que por fim descansa no altar da tua orelha.
Vivemos em eterno défice de palavras como se utilizando todas não conseguíssemos esgotar nenhuma.
Passa o tempo…
Desligas.
Eu também.
Regresso ao teu telhado tremendo de frio e ansiedade, esperando pela doce melodia da chuva que cai dos meus olhos.

domingo, 2 de dezembro de 2007

X Capítulo

Eu sei que ando a pôr-te louco.
É bem feito!
Para aprenderes!
Para não seres mau!
Invado os teus sonhos.
Levo-te numa volta alucinante de montanha russa pelos recantos mais lascivos da tua imaginação…
Não te deixo dormir.
Violo a tua memória com imagens, palavras, recordações.
Sabes qual é a minha preferida?
Aquela em que me vês sobre um enorme piano de cauda no meio de um luxuoso salão de baile com chão de mármore.
É apenas um flash, e no entanto deixa-te um efeito durante horas…
Reconheces?
Devias lembrar-te… Afinal foste tu quem me deu a ideia.
Espero que gostes.
Espero que sintas saudades da tua paz.
Espero que percebas agora o que é deitar a cabeça na almofada e aperceberes-te que nem acordado nem a dormir consegues fugir ao pesadelo.
Sentires vontade de arrancar cada fio de cabelo para que a dor física substitua a dor da alma, pois é tão mais fácil de suportar.
É horrível, não é?
Sabes agora o que é não ter paz?
É muito fácil esquecer os mortos pois como se costuma dizer, longe dos olhos, longe do coração.
Eu não quero que me esqueças!!!!
Não permitirei que tal aconteça.

A mentira dilui-se tão bem na verdade!
É como o leite quente e o açúcar…
A verdade é o leite. Branquito, desenxabido, aquela coisa apagada do costume.
A mentira é o açúcar. Basta uma colherzinha, e a verdade… mnhami! Ganha logo outro sabor!
Já deves saber que cada palavra que eu acabei de escrever é a mais pura mentira. Um éfemero rasgo de estéril imaginação.
A minha personalidade é demasiado passiva para engendrar algo t~qo trabalhoso como uma vingança.
Tenho lá eu tempo para isso!!
Tenho mais que fazer!
Mas ficou bem, não achas?

Adoro perseguir-te pela rua à noite…
Tornas-te numa criatura particularmente estranha quando caminhas pela rua sozinho.
Quem poderá resistir a esse charme?
Sigo-te pela rua sem transito…
Lembras-te?
Nela vivemos momentos verdadeiramente mágicos.
Tantas vezes que nela dançamos… Eu, segurando uma rosa selvagem na boca… os nossos rostos colados… deslizando suavemente pela calçada…
Não precisávamos de musica, não precisávamos de nada…
Dava meia volta e inclinava-me apoiada no teu braço, e quando tudo terminava, inclinavas-te languidamente e beijavas-me suavemente nos lábios.
Tudo aquilo levava-me numa viagem no tempo… Como se fossemos dois amantes dançando tango num bairro boémio de Paris, nos anos 50.
Momentos como este ninguém terá…
São pensamentos egoístas como este que me consolam em noites de frustração.
Em noites que deslizas pela mesma rua,… sozinho.
Em noites que não o poderemos voltar a fazer pois… eu estou morta, e os mortos dançam sozinhos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Fim do IX Capítulo




Eu sei que passo o meu tempo a contradizer-me, mas por vezes sinto saudades do meu caixão. A sério!
Antes estava sempre a queixar-me do cheiro, de como os vermes me incomodavam… Mas lá ao menos não tinha muito trabalho, não tinha nada para fazer, nada para ver… Via-me simplesmente apodrecer.
Agora sinto que não tenho tempo para nada.
Estou farta do mundo dos vivos!
Tudo tão complicado!
Um mundo de merda, podes crer!
Qualquer dia vou passar umas férias na minha sepultura. Descansar o meu esqueleto uns quinze dias e fico como nova!
Ah! Mas é verdade! O rapaz roubou o meu corpo.
Ainda me pergunto para que raio ele queria aquela velha carcaça.
Talvez o use para fazer magia negra…
Talvez o embalsame e quando tiver para aí virado, fode-me até me saltar palha pelos olhos.
Ou talvez me adore…Será que é amor?
Tão lindo não é?... Eu sei… Eu sei…
Qualquer dia ainda vou ver o que fez com o meu velho esqueleto.

Era em momentos como este que eu gostaria de poder escrever algo acerca dos teus olhos ou da pele macia das tuas mãos.
É mesmo uma merda não poder pegar numa folha de papel e numa caneta e escrever, escrever…até perder a inspiração e rasgar tudo o que tinha escrito. Ou tentar de novo… ou beber até me voltar a inspiração.
O álcool sempre me inspirou. Abria-me os portões do meu subconsciente e permitia-me escrever tudo aquilo que a minha consciência castradora me impedia revelar.
Tornava-me numa criatura deveras estranha quando me embebedava.
Entrava num período cósmico que incluía ficar horas a olhar para um tijolo para o tentar compreender. Ficava parada, contemplando algo num longo período de meditação. Não falava pois tinha preguiça. Era como se o meu cérebro não conseguisse executar algo tão simples como abrir e fechar a boca e deixar que saísse som.
No entanto tinha pensamentos extremamente lúcidos e organizados.
O pouco que eu dizia era coerente e se por acaso agarrava numa caneta e escrevia o que me ia na alma, as palavras fluíam de mim como a urina flúi da bexiga depois de beber dois litros de cerveja.
Tu pelo contrário eras um actor nato!
Nem mesmo quando estavas podre de bêbedo, davas a entender.
Nem os teus olhos te denunciavam…
Só mesmo quem te conhecesse muito bem e prestasse muita atenção ao que tu fazias, é que poderia apanhar-te em falso. Eram certas atitudes que nunca terias se estivesses sóbrio. Tornavas-te obsessivamente cuidadoso com cada gesto, cada palavra.

No arquivo das minhas lembranças tu virás sempre em primeiro lugar.

Todas as nossas correspondências na aula, todos os teus poemas, todos os teus pensamentos escritos que eu consegui guardar num dossier deveras piroso e demasiado pequeno para abarcar tantos sentimentos, e ideias, e sonhos…
Era em noites como esta que eu me sentava na minha cama e arquivava todos os acontecimentos no meu dossier. Colava cada imagem, cada palavra, e virava a folha.
Amanhã será um novo dia…
E uma nova folha também…

sábado, 17 de novembro de 2007

Continuação do IX Capítulo

Foram tantas as vezes que desejei ser perfeita.
Tantas vezes desejei ser tudo aquilo com que um dia sonhaste.
Mas não sou.
Estou muito longe de o ser.
Sempre desejei ser daquele tipo de raparigas cheias de qualidades e pobres em defeitos, de quem é impossível não gostar.
‘Tá bem, ‘tá!
Fizeram-me exactamente ao contrário.
Beleza?! Ah! Quando Deus distribuiu a beleza pela humanidade eu devia estar na casa de banho a mudar o tampão!
Tive uma sorte do caraças pois consegui uma ou duas qualidades numa promoção generosa, e gostarem de mim, só um grupo muito restrito de totós é que conseguia aturar-me.
Eu era verdadeiramente impossível!
O meu humor parecia um elevador dum hotel super concorrido., ora estava na cave, ora estava na Penthouse.
Por vezes passava-me uma coisa má pelos olhos e disparava a minha raiva contra todos ao mínimo movimento. Outras vezes mergulhava num estado de depressão tão profundo que bastava um pequeno toque para que eu me desfizesse em pó.
Eu era realmente impossível!
Não sei como conseguiste aturar-me…
Talvez fosse a tua infinita paciência. Era por isso que eu te adorava.
Mas perfeição?... Bah!! Ninguém é perfeito. Pelo menos perfeito no sentido geral. Agora apercebo-me que o mais importante é sermos perfeitos para alguém e que esse alguém seja perfeito aos nossos olhos.
Tu também não eras a melhor coisa que se inventou depois da batata frita, é bom que se note.
Tinhas toneladas de defeitos absolutamente detestáveis, mas sabes, até aos defeitos eu achava graça.

Eras perfeitamente imperfeito…
Era por isso que nos dávamos tão bem…
Cabrão!
“Vaca”!
Ai!... Vamos lá ver se não queres levar um enxerto de porrada?
“E vamos lá ver se não queres levar uma nos cornos!”
Palhaço!
Puta leprosa!
Vês?! É disto que eu estou a falar, da forma como nos dávamos reluzentemente bem.
Podíamo-nos insultar com as palavras mais ordinárias e com os adjectivos mais grosseiros porque no fundo nenhum dos dois sentia o que dizia.
Era falar por falar.
Talvez tenha sido esse o nosso mal…
Sempre falámos muito, mas nunca dissemos nada.
Encarregámo-nos de esconder mutuamente até os sentimentos mais inocentes como se fossemos inimigos mortais..
Era permitido contar tudo a todos, fosse o que fosse, não importava. Mas quando se tratava de falar um com o outro… O silêncio era de ouro e deixávamos que as nossas mãos, os nossos olhos, os nossos gestos falassem por nós.
Era melhor assim.
Eu preferia assim.
Apesar da minha fama de boa comunicadora, nunca me entendi muito bem com as palavras, nem sequer as sabia utilizar na altura apropriada.
Aí fazia o que sempre fiz, deixava que o resto falasse por mim.
Por vezes dava-me bem.
Outras nem por isso…
Mas que se lixe! Não se pode ganhar sempre, n’est-ce pas vrai?

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

IX Capitulo

Apercebi-me um dia que já não seria capaz de viver sem ti.
Foi quando um dia faltaste às aulas por estares doente. Fiquei completamente à toa. Dezenas de pessoas e sentia-me mais sozinha que nunca. Como se estivesse presa numa minúscula ilha no meio do Pacifico onde não haviam nem animais, nem plantas, nada. Apenas o vazio…
Fiquei desesperada.
Quando me apercebi já era tarde demais.
Agora vivia em função da tua vida.
Descobri que te amava…
Descobri que já não estava apaixonada.
A paixão é um estado de loucura efémero. É rápido como um relâmpago e deixa marcas como um ferro em brasa. Parece durar para sempre até que um dia acaba. Acaba sempre, que ninguém se iluda. É como um ramo de rosas, são bonitas e perfumadas até ao dia em que murcham.
O amor é a essência pura da paixão. Refinada através dos mais elaborados processos. O verdadeiro amor não morre, é eterno. Quando se ama, não é preciso mais para se ser feliz.
Estupidamente feliz.
Foi assim que descobri que te amava.

Nunca compreendeste o meu amor.
Foi uma pena…
Não sei ao certo de quem foi a culpa, se é que alguém teve culpa nesta história, mas se calhar até foi minha.
Talvez não tenha sido capaz de demonstrar como era grande o meu amor por ti.
E olha que era bem grande.
Tão grande que transbordou para as minhas mãos e para os meus olhos, pois o meu coração não era suficientemente grande para o guardar.
Eu teria feito qualquer coisa por ti.
Ter-te-ia dado as estrelas e a lua se mas tivesses pedido. Ainda não sei bem como o faria, mas eu cá me arranjava.

“Às vezes gostava de ser uma anjo que apenas veio à Terra para de um certo modo marcar a sua presença na vida dos outros. E depois desaparecer. Olhar para todos os que fizeram parte da minha vida terrena, lá de cima, e ver de que modo a minha vida os influenciou… e aí ver quem alguma vez gostou um mínimo de mim…”
Escreves-te isto pouco depois de me matares e partiste-me o coração.
Tanto sofrimento…
O que eu não faria para apagar esse sofrimento da tua vida e devolver o sorriso de ouro ao teu rosto de anjo.
Fizeste que eu sentisse raiva de mim por nunca te ter dito o que eu realmente sentia por ti.
Nunca poderás sentir como me marcaste a vida pois eu não conheço as palavras para to dizer. Talvez, quando um dia gostares verdadeiramente de alguém, possas ouvir essas palavras sem que eu tenha de as pronunciar. Talvez aí me possas compreender.

domingo, 21 de outubro de 2007

II Parte / VIII Capitulo

Eu sou má.
Agora estou em todo o lado.
Sou eu… Não me reconheces?
Estou no copo de café com gelo, na rodela de limão do teu Ginger Ale, nos fios de queijo da tua tosta mista, na tua aspirina com Coca-Cola, no teu Safari com Whisky, na tela dos teus quadros, no picotado do teu papel higiénico, nos teus CD’s, no teu chá de menta, nas páginas dos teus cadernos que negligentemente arrancas…
Sou eu.
Não me reconheces?
O rapaz libertou-me do suplício onde me havias prendido. O meu corpo pertence-lhe, mas a minha alma,… a minha alma nunca será sua.
Não sei ao certo como explicar esta estranha passagem da minha vida, mas digamos apenas que o rapaz adora absinto, e a música Rave subiu-lhe à cabeça..
Foi ter comigo.
Escavou os sete palmos de escuridão que me cobriam e abriu o caixão onde um dia me encerraste.
Foi nesse momento,… nesse preciso momento, que eu me tornei no que sou hoje. Uma pobre alma incorpórea que está em todo o lado.
Ele ficou com o meu corpo meio apodrecido, mas a minha alma escapou-se para além do invisível.
É estranho voltar a caminhar no mundo dos vivos. Tive que voltar a aprender muita coisa.
Agora posso fazer o que apetece. Tenho o poder de ser tudo aquilo que um dia desejei ser.
Poderia vingar-me de ti.
Poderia matar-te.
Fazer-te sofrer como me fizeste sofrer a mim.
Deixavas de existir.
E eu ficaria feliz…
Não… Não ficava.
Como queres que eu fique feliz ao ver-te sofrer?
Para mim é impossível.
Ainda gosto demasiado de ti.
O mal disto tudo sou eu!
Eu odeio-me!
E tudo por causa de quem?
De ti!
Eu adoro-te…
Mas devia odiar-te!
Vês?! É aqui que eu falho! É em ti que reside a grande falha da minha miserável existência!
Eu daria a minha alma ao Diabo só para te poder esquecer.
Raios te partam!!
Que legiões de demónios te levem para o teu – e meu – eterno descanso!
A culpa não é tua…
É realmente uma pena…
Mas porquê?
Porque é que me mataste?
Estavas assim tão farto de mim que não suportasses a possibilidade de continuar a partilhar este planeta comigo?
Não podias simplesmente ter-me comprado uns patins?
Tinha-te saído mais barato.
E a mim também…

Sabes o que é o Inferno?
Eu sei…
É a impossibilidade de te tocar estando a dois centímetros de ti, é a impossibilidade de voltar a ouvir todas as palavras que um dia me disseste, é a impossibilidade de me voltar a envolver no sentimento que um dia me dedicaste.
Acabou-se…
E o que eu vejo? Alguém que age como se eu não existisse, como se eu não estivesse sempre ao seu lado, porque não me consegue ver.
Ignoras-me.
Queres saber o que é o Inferno? Pois aqui o tens.
Tu foste o Anjo Negro encarregue de recrutar a minha alma neste mundo sombrio.
Foi essa a tua missão.
Não faz mal…
O mal de tudo foram as palavras… Com palavras me salvaste, e com palavras me mataste. Podia ter sido de qualquer outra forma, é bom que se note, mas escolheste as palavras.
Nunca usaste violência física. Não precisavas. Conhecias as palavras que desfaziam… que feriam como uma faca mal afiada.
Usaste-as tantas vezes…
Deus do céu! Como as usaste!
Mataste-me naquele dia e mataste-me antes e mataste-me depois com palavras e gestos e silêncio.
Continuas a matar-me.
A minha vida… quer dizer, esta miserável forma de existência, se é que assim lhe podemos chamar, é demasiado monótona.
Choco com as pessoas na rua, mas nem preciso pedir desculpa pois elas não me conseguem ver, nem tão pouco sentir.
Devo confessar que faço algumas maldades… E a minha curiosidade leva-me a fazer coisas que dariam para ser excomungada, mas tu conheces-me… certas coisas são mais forte que eu.
Tantos velhinhos tropeçaram “acidentalmente”.
Tantos meninos ficaram sem boxers.
Tantas vezes passei as minhas mãos pelas tuas costas no duche…
Eu sei…eu sei… Eu sou tão mazinha!
A tua vida também não se pode considerar a festa do ano. Continuas na mesma escola, com os mesmos amigos, com os mesmos hábitos… Não mudaste nada, ainda assim cresceste.
Continuas sozinho… Centenas de pessoas à tua volta e continuas sozinho.
Sinto-me mesquinhamente por não teres encontrado ninguém que me substituísse na minha função preferida: adorar-te.
Ainda bem…
Sabes bem como sou. Se houvesse mais alguém na história eu retirava-me. Seria muita gente ao mesmo, e se há coisa que eu detesto é falta de originalidade.
A minha invisibilidade permitiu-me descobrir muita coisa a teu respeito.
Descobri que por trás dessa máscara de gelo, se esconde afinal o mais sensível dos seres.
E fico feliz…
Fico feliz pois sou a única a sabê-lo.
Fico feliz pois tenho mais um milhão de motivos para te adorar.
Fico feliz por poder partilhar este pequeno segredo contigo.
Não te preocupes…
Guardá-lo-ei com a minha vida.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Continuação do VII Capitulo





Um dia perguntei-te como seria a rapariga com quem gostarias de te casar. Disseste que tinhas dois modelos. Claro! Tu, e a mania das variedades!!
Os dois modelos eram bastante distintos, mas com alguns pontos em comum: o corpo da Eva Herzigova, e o facto de serem diferentes das raparigas comuns.
O teu primeiro modelo era qualquer coisa do género: Corpo da Eva Herzigova, 1m65, cabelos dourados e ligeiramente encaracolados, vestiria roupas indianas, Biólogo do Greenpeace, meiga e doce, sem ser demasiado pegajosa, pois quando o mel é muito até a abelha se afoga.
O segundo modelo era bastante diferente. Mantinha-se o corpo da Eva Herzigova, mas teria cabelos negros e lisos, olhos violeta (como se existisse alguém assim!), vestiria de preto, exuberante sem roçar os limites da piroseira, seria pintora, faria pratos exóticos estranhos, daria valor às pequenas coisas da vida, e embora fosse doce como a outra seria bem mais dicidida.
Foste um pouco vago na descrição das qualidades. Esqueceste-te do mais importante.
Mas numa coisa foste bastante específico e objectivo: os defeitos.
Nenhuma delas seria possessiva, egoísta, ciumenta (bem, talvez… mas sou um pouco), má, antipática, etc….
Nunca entendi porquê, mas quando tentavas descrever as qualidades de alguém, faltavam-te sempre as palavras. Não conseguias encontrar adjectivos. Mas os defeitos… Ah! Recitavas o dicionário completo!
Estranho, não é?
E ainda mais estranho era o facto de que quando apontavas defeitos, parecia que todos eles de alguma forma eram meus. Como se eu possuísse todos os defeitos detestáveis que um ser humano possa possuir.
Talvez fosse verdade…
Talvez fosse o meu ego que pensa que tudo gira à volta de mim.
Mas ainda assim, e apesar dos meus detestáveis defeitos, fui a única a adorar-te acima de tudo.
Acho que foi esse o meu mais detestável defeito.
Possessivíssimo…
Ainda hoje não engulo bem a palavra.
Não é por ser comprida, mas por todas a vezes que me chamaste possessiva.
Foi realmente uma pena…
Destino…Ah!
O próximo palhaço que me falar em destino, leva um murro nas trombas!
Não me venham com a desculpa do destino cada vez que a coisa dá para o torto.
Como alguém disse um dia: “O Inferno são os outros”.
Homem sábio…
Quase aposto que foi mais outro excêntrico que se suicidou. Como se ele soubesse o que é o Inferno…
Mas por outro lado sou levada a concordar com o Kurt Cobain que disse: “Mais vale morrer que esvanecer”.
Mais outro totó que se matou…
Eram todos tipos porreiros. Gostava de os ter conhecido.
Eles ao menos poderiam compreender-me.
Foi realmente uma pena…
Estou morta…
Estou com sono… Acho que vou dormir.
Despeço-me com a sábia frase:
“As meninas boas vão para o céu, as más vão para todo o lado”.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

VII Capítulo




As verdadeiras estrelas apenas brilham na escuridão.
Este foi um dos pensamentos que eu inventei para me animar quando a vida me corria mal.
Basicamente o que esta frase quer dizer é que todos os que atravessam o deserto do sofrimento no presente, terão um oásis de felicidade no futuro.
Este pensamento sempre me alegrou.
Mais uma mentira…
Eu nunca alcancei nenhum oásis de felicidade.
Talvez porque eu própria não me possa considerar uma estrela, nem tão pouco tive a sorte de atravessar o deserto do sofrimento.
O único deserto que atravessei foi o do vazio.
O vácuo…
O silêncio interminável…
Anos de normalidade aborrecida.

Pouco soubeste da minha vida.
Eu ainda menos soube da tua.
A verdade é que poucas vezes me dei ao trabalho de responder com a verdade às muitas vezes que me fazias.
Verdade para quê?
Já me basta ter verdade no nome…
Deixo a mentira para a vida.
Tu parvalhão…
Tu longe…
Eu podre de triste…
Eu cansada…
Eu só…
Os teus olhos…
Deus do Céu!... Quem não se afogaria de boa vontade nesses olhos de água suja?
Para mim, há muito que tu tinhas deixado de ser um simples ser humano, e tinha agora asas onde todos os outros têm ombros.
Tinha uma verdadeira adoração por ti.
Pior que os fanáticos islâmicos…
Não sei porque te adorava assim.
És o meu Anjo…
O meu Anjo de Olhos Tristes…
O meu amor por ti há muito que tinha deixado de ser físico.
A verdade é que se tinha tornado puro e inocente, como o amor de dois irmãos que cometeram incesto.
Tanto poderia ficar o resto da vida a olhar para ti em silêncio, admirando-te nas trevas, como poderia descer ao nível da mais reles das meretrizes e possuir-te até o Diabo nos levar a alma.
Sempre tive este pequeno problema de expressão que nunca me permitiu pôr em palavras o que eu realmente sentia.
Tentei muitas vezes…
Nunca consegui.
Mas para quê palavras se Deus nos deu os olhos, as mãos, a boca…
Para quê palavras quando o silêncio é muito mais interessante.
Adorei-te no puro sentido da palavra.
Ainda hoje me pergunto como pudeste não perceber?
Sempre disseste que eu disfarçava bem os meus sentimentos… Talvez tenha sido por isso que não percebeste.
Aliás, é fácil entender… Como é possível compreender um sentimento que nunca experimentámos?
Preferiste chamar-lhe possessivísmo…
Não me importo.
Eu sei que estou morta e que é tarde para me justificar…
Nunca foi possessivismo, ou qualquer outro sentimento doentio. Eram o teu desprezo e frieza que me faziam ficar insegura, disparando contra tudo e todos à minha volta, mesmo antes de ver o alvo.
Era a esperança de ver uma réstia do passado no teu sorriso ou no teu olhar.
Raras vezes a encontrei.
Pura antipatia, claro.
Preferiste chamar-lhe possessivismo…
Podes chamar-lhe o que quiseres.
Por mais que eu tente e por mais que eu me explique, tu nunca conseguirás entender.
É muito fácil criticar quem está do outro lado da história.
A crítica é a reacção natural dos ignorantes.
Se soubesses metade do que eu passei…
Se soubesses o que eu estou a passar…

Tenho saudades do rapaz…Lembras-te dele?
Ele nunca mais apareceu… Tu também não, mas isso era de esperar. Agora ele… Quem me dera que ele regressasse, que me salvasse deste suplicio com as suas palavras calmas e generosas.
Chocado?!
Já devias saber que não és a única pessoa a encher-me os pensamentos, nem tão pouco foste o primeiro a tirar-me horas de sono.
Houve um antes de ti.
Eu falei-te dele…
E como falei!!!...
Talvez porque fizemos uma grande maldade ao pobrezinho.
E foste tu o culpado!
Se não fossem esses teus olhos…
A traição é um Karma que se carrega para o resto da vida.
Eu estou a pagar bem caro por todo o mal que lhe fiz.
Eu fiz sofrer o outro rapaz da mesma forma que tu me fizeste sofrer a mim.
Eu fui injusta, eu fui cobarde…
Mas estava tão inebriada… contigo.
Foi mais uma das lições que a vida me ensinou… Quando fazemos mal a alguém podemos ter a certeza que vamos pagar bem caro por isso.
Mais cedo ou mais tarde todos nós saldamos as nossas dívidas de uma forma ou de outra.
Foi por isso que eu nunca me dei ao trabalho de me vingar de quem quer que fosse. Não vale a pena. Escusamos de sujar as nossas mãos com seres inferiores, e podemos ainda assim, assistir confortavelmente da primeira fila, à sua queda.
Não é justiça divina.
É justiça da vida, e nesta eu dou-me ao luxo de acreditar.
Poor Little John… Sim, era esse o seu nome. Espero que ainda te lembres, afinal foste tu que lho deste. Se arrependimento matasse…
Não tinha o direito de fazer o que fiz…
Eu fui injusta com ele…
E agora estou a pagar bem caro…
Tu… Tu foste o meu Karma!

Eu sei que não fui feita para ti.
Foi neste ponto que a vida errou… Tu foste feito para mim.
Estranho como a vida nos juntou.
Foi um erro… Mais um erro que a vida cometeu. E como sempre, desse erro resultou o sofrimento. O meu…

terça-feira, 2 de outubro de 2007

VI Capítulo




Capítulo VI

Grito pelo teu nome.
Sei que não me podes ouvir.
Por vezes penso que já te esqueci…
È provável que sim…
Mentira.
Basta-me lembrar dos teus olhos de caleidoscópio para que o amor me cegue novamente.
Sempre quis escrever um livro.
Comecei muitos…
Não acabei nenhum.
Não gostava do que escrevia.
Gostaria de poder escrever um livro sobre os teus olhos. Para que eles passassem para a posteridade. Imortalizá-los num Bestseller a nível mundial. Daqueles que toda a gente compra, mas ninguém lê.
Falta de tempo…
Falta de paciência…
Bonito para preencher a prateleira.
Ainda bem…
Teria o consolo de ser a última a vê-los. “Vê-los”, pois ninguém os viu realmente. Muita gente os elogiou, reconheceu a sua beleza, mas ninguém mergulhou neles, ninguém conseguiu misturar-se com o infinito do seu brilho nem com as suas cores indefinidas.
Só eu…
Acho que a forma como vemos os olhos de alguém tem muito a ver com os sentimentos que dedicamos a essa pessoa. Quanto mais profundos forem os sentimentos, maior é o mergulho.
A vida tem destas coisas.
E os teus olhos também.

Onde estás?
Que fizeste dessa vida que um dia partilhaste comigo.
Lembras-te de como éramos inseparáveis?
Até respirar perdia o sentido quando estávamos longe um do outro, e agora…
Bizarro como tudo passa e muda. Como tudo se altera.
O Tempo é como a esponja do quadro de uma sala de aulas. A sua função é apagar tudo o que escrevemos na nossa vida. Devolver tudo ao esquecimento, que afinal é o melhor lugar para certo tipo de coisas. Como eu… Num momento preenchi o quadro da tua vida, no outro fui cruelmente apagada, devolvida ao esquecimento como um maldito exercício de matemática.

O verão está a chegar ao fim.
O tempo aqui passa de maneira peculiar. Os dias parecem anos e os meses parecem centésimos de segundo.
Tudo se confunde e mistura nas rendas do meu caixão.
Até quando?
Até quando ficarei aqui, sofrendo a tortura de me ver desaparecer.
1 de Outubro…
Lembras-te?
Teria sido um dia como outro qualquer se eu não te adorasse e tu não me tivesses matado.
Perdi a pressa…
Perdi a inspiração para continuar a escrever coisas bonitas.
Sempre que penso nesse dia fico desesperada e as lágrimas, que já nem existem, reúnem-se em protesto na minha garganta e sufocam-me.
Deixo de respirar.
Deixo de pensar.
Acabaste comigo nesse dia.
Não foi só a mim que atiraste do cimo daquela torre, foi tudo o que de mais bonito existiu neste mundo.
O meu amor…O meu eterno amor.
Eterno como o tempo da minha queda.
Eterno como o som dos meus ossos a esmagarem-se contra a dureza do chão.
A minha adoração por ti foi um pouco como a minha morte. Começou como um acidente e acabou em desgraça.
Será que tiveste coragem de admitir que foste tu quem me matou, ou deixaste que me ridicularizassem como “mais uma vitima de acidente” ou como “um trambolho com excesso de peso e falta de competência para descer umas simples escadas”?
Que importa isso agora?
Sempre pensei que os mortos não sentiam nada… Mas que sabemos nós das coisas até as experimentarmos.
Até hoje nunca tinha relembrado aquela noite com tanta clareza… Foi tudo tão estúpido que mais parecia um quadro psicadélico-dramático.
Podia descrever todos os passos que demos, todas as palavras que me disseste, mas para quê fazê-lo?
Estávamos na nossa torre.
Ao descer os degraus, rebolei as escadas e sem saber como saltei o pequeno muro que as rodeavam.
Nesse momento deixei de acreditar em Deus.
Pensei que ia morrer.
Apesar de nunca ter dado muito valor à vida, naquele momento agarrei-me a ela com quantas forças tinha. Gritei por ti, mas não apareceste. Gritei novamente e por fim apareceste. Mas o teu rosto não era o mesmo. Meteste-me medo. O teu rosto parecia o de um fantasma ou demónio, e estavas insuportavelmente calmo, como se tivesses tomado uma overdose de Valium’s . Olhavas-me com uma frieza que me gelou o sangue. Debruçaste-te sobre o muro e disseste que te agarrasse a mão, que me irias salvar.
Confiei em ti. Agarrei-a.
Fiquei então suspensa apenas pela mão que segurava a tua. Esperei que me içasses para cima, mas não o fizeste. Pedi-te para o fazeres, mas ficaste impávido e sereno. Olhando-me da mesma forma distante.
Comecei a ficar desesperada.
Não conseguia entender por que me estavas a fazer aquilo.
Lançaste-me um último sorriso sádico e por fim disseste:
“Adeus”
Largaste a minha mão e foi como se o meu corpo pairasse na descida. Devagar… Devagar…Como se tudo tivesse parado e o teu sorriso ficasse eternamente sádico. Como se eu tivesse todo o tempo do mundo antes de atingir o chão.
Ainda hoje não entendo como o conseguiste fazer…
Um dia escreveste-me um poema como resposta a um outro que eu te tinha escrito antes, e que era deste género:

“Não sei o que fazer
Se me largo a rir
Ou se me afogo em lágrimas
Não tenho nada a perder
A não ser o teu amor.
Mas se isto acontecer
Vou tentar esquecer
Mas não me vou esconder.
A verdade foi feita para ser dita
E o que mais me irrita
É que a verdade seja dita.
Quero viver neste mundo de fantasia
Até que o fogo comece a gelar
A água a arder
E o Diabo a rezar.
Só aí poderei deixar de te amar
E tu deixarás de me merecer…”

Foi a coisa mais bonita que alguma vez me escreveram…
E no fim, junto com a tua assinatura, escreveste: “Até que a morte nos separe”.
Tinhas razão…
Foi a morte que nos separou.
Foi por isso que me mataste? Para poderes ver-te livre de mim?
Ainda bem que o fizeste.
Se me tivesses abandonado de outra forma eu mesma o teria feito, e agora, mais do que nunca, acho que o suicídio é ainda menos digno.
Agora que penso no que aconteceu, deixei de te odiar e agradeço-te eternamente…
Obrigado…

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Fim do V Capítulo



“É verãaaaaoooo! E os peixes andam aos saltos!” Lembras-te? Cantavas essa música como se fosse algo natural. Devias ter alguma coisa contra o verão para o massacrares dessa maneira. Mas sabes, o meu amor por ti era tão cego que até do raio da música eu gostava.
Amor…
Porque é que mais cedo ou mais tarde acabamos inevitavelmente por falar nele? Pergunto-me se algum dia serás capaz de amar alguém, da mesma forma que eu gostava de ti. Tanto, que tudo à minha volta se tornava banal quando estava contigo.
O verão…
Os vermes continuam o seu trabalho.
Há quanto tempo?...
“Há quanto tempo o quê?”
Há quanto tempo me mataste?
Mau! Mau! Mau!
Não bastava teres-me tratado como uma leprosa?!
Eu podia ter tido uma vida, porra!
Eu podia ter sido feliz!
Talvez contigo, talvez não…
Estranho… Agora que estou morta sei que nunca vou saber.
Está quase a fazer um ano.
Um ano… Que terá acontecido neste ano?
Para mim pareceu-me uma eternidade.
E para ti?
Que se foda tudo!
A morte, a vida, …Tudo!!
A ignorância…
Triste esta ignorância própria de quem está morta.
Quem me dera saber o que se passa aí em cima e poder, sei lá… fazer alguma coisa. Qualquer coisa.
Estou só…
Ninguém vem falar comigo.
Nem mesmo o rapaz… Lembras-te? Nem esse.
Estou só…
Como podemos saber o que os outros sentem?
Acho que devia falar com alguém…
Será que têm linhas do género “SOS Solidão” para mortos?
Estou a precisar.
Preciso falar com alguém…
Contar todas as minhas merdas e devaneios. Procurar um pouco de ajuda e conforto nas palavras de um outro alguém. Sempre me queixei que ninguém me compreendia…
Só tu…
Só tu me conseguias compreender.
Porque éramos iguais.

Estou a pensar em ti…
Nada de especial, bem sei…
Penso na violência que rodeava a nossa relação.
Violência física.
Adorava bater-te!
Adorava morder-te!
Puxar-te os cabelos!
Não sei porque o fazia. Talvez para te lembrar que eu existia, que estava ali.
Sempre.
Lembro-me que um dia te mordi o pescoço. Foi uma mordida rápida, inocente, como a de um vampiro, mas ainda assim fez sangue.
“Violenta!!” reclamaste tu. “Odeio quando me mordem!”. Dizias isso como se te mordessem muitas vezes… Tentei redimir-me com um beijo, mas como todo o criminoso que se preze voltei ao lugar do crime. Comecei a sugar-te a ferida como uma possuída.
Foste a única pessoa a quem provei o sangue.
O único.
No dia seguinte contaste-me que tinhas passado a noite com uma camisola de gola alta, morrendo de calor, para não se ver a mancha roxa que eu tinha deixado.
Adorava maltratar-te!
Eu sei que sempre me afirmei pacifista, mas contigo era diferente.
Adorava bater-te!
Especialmente depois dum beijo…
Apanhava-te desprevenido e ficavas sem reacção.
Às vezes ripostavas.
Batias-me…
Mas eu gostava.
Talvez te batesse porque no fundo adorava que me batesses também.
Eu sei… Eu sei…
Eu era uma masoquista…

terça-feira, 18 de setembro de 2007

V Capítulo

Se me perguntassem por que é que me apaixonei por ti, acho que não saberia o que responder.
O nosso amor não era racional, não tinha lógica ou método. Se um psicólogo o tentasse estudar, ou desistia ou enlouquecia.
Era impossível.
Não éramos iguais a ninguém.
Não conseguíamos fazer o que os outros faziam, por isso inventamos algo novo.
O nosso amor.
Diferente.
Bom.
Ou talvez não.
Tanto faz…

Aquele dia…
Gostaria do poder descrever, de contar a nossa história, para que mais ninguém caísse nesse engano. Na tentação de cometer o mesmo erro, mas não sou capaz…
Para contar uma história é preciso ter a cabeça fria, não estar envolvido emocionalmente, e eu neste momento… Além disso nunca fui muito boa a contar histórias. Deixava sempre essa tarefa para ti. Tinhas mais imaginação, mais paciência.
Aquele dia…
Uma tarde de primavera…
Estavas lindo…
Umas calças que julgavas serem modelo único, mesmo quando vias cem iguais à tua frente. Tinham tantas manchas que a minha imaginação divagava tentando descobrir como as tinhas feito.
Uma sweat-shirt preta… Era suposto ser preta, mas a tua espuma já a tinha massacrado tanto, que de preta só tinha mesmo o nome.
Os teus cabelos estavam selvaticamente soltos, pois para amargura tua ainda não eram suficientemente compridos para os prenderes, e as toneladas de espumas que lhes punhas escorriam em gotas pelo teu pescoço.
Estavas lindo…
Nesse dia contaste-me que um dia te deste ao trabalho de fazeres uma lista das pessoas que achavas mais feias que tu. Ainda hoje me pergunto como o teu ego e a tua auto-estima exacerbada to permitiram fazer, mas se calhar até fizeste mesmo. No entanto aposto que desististe quando a lista se tornou demasiado extensa.
Como é que não vias que eras lindo?!
Eu sei que nunca ninguém to disse, pelo menos não assim, a bandeiras despregadas, mas é para isso mesmo que eu existo. Para inchar ainda masi esse ego que cobre todo o Universo.
Aquele dia…
Estava tão feliz…
Tu também.
Parecia que todo o mundo estava feliz.
A felicidade é contagiosa.
Mal nós sabíamos o que estava para acontecer.
Ainda bem…
Ainda bem que a vida é feita de ignorância.
Aconteceu tudo tão depressa que nem tive tempo para respirar.
Ente um copo e outro, aconteceu uma vida de emoções e merdas.
Não dei por nada.
Aconteceu tudo tão naturalmente que nem dei pela chegada da felicidade.
Felicidade…
É tão desinteressante.
Não tem história.
Passa ao lado.
Só pensamos nela quando já se foi embora.
Merda! Só de pensar nisso fiquei triste outra vez!
E tu, continuas contente?
“Não tens nada a ver com isso!”
Eu sei que estás feliz.
“Mete-te mas é na tua vida!”
Estás feliz porque eu também estou.
“Somos tão parecidos que até enjoa!”
Não digas isso…
“Porquê?”
Porque é verdade e a mentira é que é boa!
Tu não consegues mentir.
“Quem se rala?”
Eu.
“Estou-me a cagar completamente para ti!”

Isto está errado.
Nós não éramos assim. Dávamo-nos bem, e dávamo-nos mal, mas nunca me trataste mal.
Jogo de engate…
É o melhor da história.
O nosso foi o melhor. Como a foda do século.
Foda que nunca demos, com muita pena minha.
Por vezes penso em sexo…
Sexo…
Suor…
Saliva…
Lágrimas…
Mãos no meu corpo. Mãos que me despem e me arrepiam.
Noites inteiras de sexo louco e selvagem…
Não existiram…
“Azarito, minha amiga”
Fica para a próxima…

O mal de tudo é o amor.
O amor fode tudo, mesmo aquilo que nunca foi fodido.
O amor… Entra na nossa vida como um amigo inesperado que veio para jantar. Sem aviso prévio ele chega e fode todos os nossos planos.
O amor… Creio que o amor é um pouco como a morte. É mau, mas necessário.
Estou morta…
Adoro-te…
Merda!
Dois males de uma só vez! É um pouco demais!
Queria esquecer-te.
Queria deixar de amar.
Assumir o meu papel de morta a tempo inteiro.
Estou farta!
Quero arranjar um morto jeitoso.
Não o quero amar.
Quero fodê-lo até que um de nós parta o esqueleto.
Quero divertir-me!
Quero aproveitar esta morte até que não sobre mais morte para aproveitar.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

IV Capítulo

Acho que estou feliz.
É bom.
É diferente.
Olho para a minha vida, que nem vida é, e fico feliz.
Estou morta.
Morri no auge da minha juventude.
Morri virgem.
Não conheci nenhum país.
Não conheci mais de metade dos prazeres da vida.
Estou feliz.
Finalmente estou feliz.

É mentira.
É tudo uma grande mentira, mas eu gosto de mentir. AS mentiras são boas. São suaves. São simpáticas. Não magoam. AS mentiras são como os penso rápidos, não curam a realidade, mas ao menos evitam que ela volte a sangrar.
A minha vida foi uma mentira.
A minha morte também.
Eu fui uma mentira.
E tu também
Construí a minha vida em cima de mentiras e quando tentei acabar com elas, desmoronei-me. Morri. Mataste-me.
Cabrão! Odeio-te!
“Até parece que eu acredito!”
Claro que acreditas. Sempre acreditaste.
“Não sabes mentir.”
Tu também não.
E não sabias mesmo. Sempre que me tentavas mentir eu acabava inevitavelmente por descobrir a tua mentira.
Tinhas jeito para mentir. Pena que só servisse para os outros. Éramos demasiado parecidos, lembras-te?, e os teus pensamentos não eram segredo para mim. Descobria quando estavas a mentir pois no teu lugar mentiria exactamente sobre a mesma coisa.
Estou feliz.
Estou frustrada mas estou feliz.
Tão triste…
Uma morta frustrada, mas feliz.
Estou morta. Estou feliz. Etc…
Talvez esteja feliz porque estou morta ou talvez esteja morta porque estou feliz. É tudo muito complicado. Não me peças para explicar, estou cansada. Acho que os vermes já começaram a consumir o pouco cérebro que alguma vez possui. Acho que o vomitaram. Não prestava.

Lembras-te da minha morte?
Eu lembro-me…
Estava feliz. Tu também.
“Não estava nada!”
Cala-te e deixa-me lembrar!
Foi uma morte injusta.
Não, foi estúpida
Não merecia morrer.
Dizem que os maus não morrem… Isso é mentira! Eu era má e morri. Não tanto como tu, claro! Eras insuperável! Mas conseguia ser má, especialmente quando estavas longe. Queria vingar-me da distância. Era má. Mas tu ainda eras pior.

Não acontece nada aqui em baixo.
Estou parada.
Não me quero mexer.
Deixo esse trabalho para os vermes, eles que se mexam se quiserem.
A vida é uma merda.
A morte também.
Eu gosto da vida.
“Eu não.”
Porque é que tens que estar sempre a contrariar-me?
“Porque me apetece!”
Eu sei que gostas da vida.
“Sabes lá tu!”
Cala-te e deixa-me!
“Isso querias tu!”

Os dias são cada vez mais sossegados. Não há pressas, não há para onde ir. Não há horários a cumprir, não há nada.
Apenas silêncio.
Silêncio.
É bom.
É sossegado.
É diferente.
Nunca tivemos um momento de silêncio ou sossego. Não conseguíamos. Era impossível. Havia sempre algo a dizer, um som, uma música. Era impossível estarmos calados. Quando se fala muito, cerca de 90% do que se diz é lixo verbal. Mas nunca connosco. Nada do que dizíamos era desprovido ou carenciado de significado. Cada palavra, cada som, cada gesto tiveram uma história. Foram especiais.
Tudo era especial.
Dentro da regra nós fomos a excepção.
Talvez porque quebrámos todas as regras.
E todas as excepções.
Não consigo pensar.
“Se conseguisses é que me espantavas!”
Porque é que és assim?
“Porque me apetece!”
Não vês que te amo? Que cada dia que passa mais o meu coração te pertence?
Quero sair daqui.
Deixar os vermes.
Este corpo que nunca me agradou.
Este mundo inferior e frio que por vezes combina demasiado comigo.
Quero voltar a dar os teus passos.
Correr pelas ruas vazias só pelo prazer de correr.
Sem pressas…
Chamar por ti só porque sei que não me poderás ouvir.
Devolve-me a vida.
Dá-me um sinal.
Algo…
Deixa-me voltar a viver.
Quero tempo.
Tempo para mim.
Tempo para ti.
Tempo para morrer.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Summer Wine

Strawberries cherries and an angel's kiss in spring
My summer wine is really made from all these things

I walked in town on silver spurs that jingled too
A song that I had only sang to just a few
She saw my silver spurs and said let pass some time
And I will give to you summer wine

Oohh-oh summer wine

Strawberries cherries and an angel's kiss in spring
My summer wine is really made from all these things
Take off your silver spurs and help me pass the time
And I will give to you summer wine

Oohh-oh summer wine

My eyes grew heavy and my lips they could not speak
I tried to get up but I couldn't find my feet
She reassured me with an unfamilliar line
And then she gave to me more summer wine

Oohh-oh summer wine

Strawberries cherries and an angel's kiss in spring
My summer wine is really made from all these things
Take off your silver spurs and help me pass the time
And I will give to you summer wine

Oohh-oh summer wine

When I woke up the sun was shining in my eyes
My silver spurs were gone my head felt twice its size
She took my silver spurs a dollar and a dime
And left me cravin' for more summer wine

Oohh-oh summer wine

Strawberries cherries and an angel's kiss in spring
My summer wine is really made from all these things
Take off those silver spurs and help me pass the time
And I will give to you my summer wine

Oohh-oh summer wïne


Him

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Fim do III Capítulo

Eras incrivelmente bonito!
Sei que nunca to disse , nunca tive coragem. Talvez porque sabia que se to dissesse o teu maldito ego explodia-me na tromba. Era capaz de passar horas inteiras a observar-te, sem que ninguém desse por isso, apenas a admirar-te, a contemplar-te, a derreter-me com o teu charme.
Penso que não se consegue amar verdadeiramente uma pessoa se não a admirarmos. Eu posso dizer que te amei verdadeiramente pois foste a pessoa que mais admirei neste mundo. Ainda te admiro.
Por vezes tento lembrar-me de como era estar viva, mas acho que já me esqueci.
Lembro-me que por vezes andava na rua e me cruzava-me com muitas pessoas. Não conhecia a maior parte delas, mas bastava-me olhar para os seus rostos para saber que sofriam todas do mesmo mal: tristeza. Tinham os rostos cinzentos, fechados, nublados, como o céu numa manhã chuvosa de Inverno. Eu também era triste, mas ao menos sorria… Sorri até morrer.

Acho que ainda sorrio, apesar de ter uma vontade irreprimível de chorar.

Deus, como eu gostaria de poder chorar! Mas tenho medo…Tenho medo de não conseguir parar.
Além do mais não sei ao certo porque choraria. Talvez pelo puro prazer de deixar rolar as lágrimas pelo meu rosto semi-carcomido pelos vermes. Talvez…
Será que choraste alguma vez? Náaah! Mau como eras aposto que nem lágrimas tinhas.
Mau! Mau! Mau! Crápula! Ser cruel! Malvado! Perverso! Deus, como eras insensível, frio…
Mau! Muito mau mesmo!
Não, houve uma vez que quase choraste. Foi por minha culpa eu sei… lembras-te? Aposto que não. Apenas te lembras daquilo que te interessa. Agora estou feliz por isso. Fiz-te sofrer. Foi bem feito! Mau. Não chegaste a chorar. Tinhas vontade, … mas não pudeste. Seria mostrar demasiado a tua personalidade sensível e tu não querias isso, pois não?
Acho que só me viste chorar uma ou duas vezes. E no final acabei sempre bêbeda, depois de termos feito as maiores loucuras. Acho que gostavas de me ver chorar. Cada vez que eu chorava, mais próximos nós ficávamos.
Adorava estar contigo.
Adoraria estar contigo.
Mas tudo acabou…
Bons velhos tempos…
Já não voltam…
Talvez sim…
“Ilusão”
Cala-te e deixa-me iludir!
“Pára com isso!”
Sofrimento…
Eu gosto do sofrimento. É quentinho…
“Masoquista.”
Talvez…

Parece que sempre que eu estava a um passo de alcançar a felicidade completa, esse passo ficava por dar e eu voltava a cair novamente na lama.
Sempre eu tinha algo bom, perdia-o intencionalmente…
Como é que eu pude ser tão estúpida?!
Definitivamente, eu era estúpida!

Porquê tanto sofrimento?
Nunca consegui entender a necessidade do sofrimento. Não era suposto Deus querer-nos ajudar, ver-nos felizes? Então porquê?!! Porque é que nos é imposto o sofrimento?
Como é que Deus pode ser tão sádico?
Definitivamente, ele é sádico!

terça-feira, 11 de setembro de 2007

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Como saber o que realmente queremos?
Como saber quem realmente somos?
Será que o que eu quero hoje tem o mesmo valor amanhã, quando se torna um dado adquirido?
Se a nossa vida se pode julgar pelas pessoas que passam por ela, será que me posso considerar uma solitária?
E se eu for um animal social? Como fico?
E se queremos tudo e não temos nada? E se temos tudo e não queremos nada? Ou queremos uma única coisa e não a conseguimos alcançar? E se um dia a alcançarmos será que depois lhe daremos o devido valor? Provavelmente não. Porquê? Porque somos humanos e a nossa natureza não o permite. Podemos controlar muitos aspectos da nossa vida, da nossa personalidade, mas o “core”, aquilo que faz de nós aquilo que somos, nunca poderemos mudar. Como se diz: “Não se pode mudar o coração”.
Mas falando fisiologicamente isto é mentira! Afinal, há já uns anos valentes que se fazem transplantes!
Por vezes penso que preciso de um coração novo. Não que o meu não funcione bem! Bate quando deve, mesmo durante as minhas hiperventilações. Mas guarda dentro dele muita coisa que eu gostaria de poder esquecer ou pelo menos mudar. Pessoas que nele habitam mas que já não estão comigo.
Será possível revisitar velhos fantasmas e descobrir que nunca chegaram a morrer?
Será?

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domingo, 9 de setembro de 2007

Sexo, sexo, sexo...........................................

Falemos de sexo…
Falemos do sexo que se quer e não se tem, do sexo que se tem e não se quer.
Falemos dos diferentes tipos de sexo e das suas componentes.
Após longas horas de reflecção e prática (Eh!Eh!) conclui na minha humilde opinião que existem quatro tipos distintos:
O “Vanilla Sex”
O “Sex Sex”
O “Porn Sex”
O “Faaaaantaaaastic Sex”
Há quem chame “fazer amor” ao “Vanilla Sex”. Fazer amor? Ah! O amor não se faz, ou existe ou não existe! O que é uma pena, acreditem! Se o amor fosse coisa que se fizesse aposto que muito boa gente por esse mundo fora, levantava o cu gordo do sofá, ignorando a sua preguiça natural, e até se dava ao trabalho de o fazer! Basicamente é o sexo fofinho, cheio de miminhos e palavras melosas praticado pelos casaizinhos de longa data e pouca imaginação e pelas alforrecas. Pode saber bem de vez em quando, mas o seu uso prolongado poderá provocar efeitos secundários tais como: Esquecimento de todas as outras posições do Kama Sutra excepto a posição de missionário, bloqueio do globo ocular na direcção do tecto e concluir ser melhor pintar o tecto de bege, sonolência, impotência/frigidez, etc (em casão de dúvida ou persistência dos sintomas for favor consulte o seu terapeuta sexual).
Existe também o “Sex Sex”. É o tipo que surge de erupção aleatória de hormonas, que produz uma humidescência ou turgimento do órgão sexual e nos leva a olhar para o objecto do nosso desejo com olhos de carneiro mal morto na esperança que a outra parte também esteja para aí virada. Surge normalmente em situações de tédio (trabalho, aulas, estudar…), situações de alcoolemia interessantes, descargas de ferormonas violentas que nos entram pelo nariz, coçam o nosso Órgão de Jacobson e fazem achar a criatura em questão (entenda-se a possuidora das ditas ferormonas) o mais apetecível dos seres, ou então simplesmente porque nos apetece! É foda, orgasmo e até à próxima, por esta ordem, se bem que cada um é livre de fazer o que bem entender, e orgasmo, até à próxima e depois foda também pode ser interessante.
O “Porn Sex”é também outra forma interessante de desprendimento sentimental. É o sexo “Quinky”, sem barreiras, tabus, sem medo de pedir o que queremos naquele momento sem medo de ofender a sensibilidade ou o estômago da outra pessoa. É o sexo “alternativo”. “hardcore”, “punk”, com múltiplos parceiros, chicotes, insultos, palavrões, espancamento, puxões de cabelo, disfarces de mordomo ou enfermeira, vontade de foder dentro de uma banheira cheia de Chili, fazer sexo oral na casa de banho dum hipermercado só porque sim! É um tipo de sexo bastante praseiroso, mas que não faz muito sentido ser repetido com a mesma pessoa, nem muitas vezes, senão é mais inteligente trabalhar na industria cinematográfica especializada, sempre se ganha uns trocos!
O “Faaaaantaaaastic Sex” é, tal como o nome indica, fantástico! É a junção harmoniosa de todos os outros tipos de sexo. É amar aquela pessoa à nossa frente e poder trocá-la por qualquer outra, é explorar sem medos, é sentir o calor subir ao rosto e sentir “tingles” em partes interessantes do corpo mesmo após vinte anos de relacionamento, é fodê-la impunemente e sentir os joelhos fraquejar com um beijo.
Quantas vezes na vida temos “Faaaaantaaaastic Sex”? E será que as contamos? Quantas pessoas nos poderão fazer sentir assim? Será que é utópico? E todos os outros tipos, não serão eles também necessários e instrutivos?
Falemos de sexo!
Falemos dos instintos primários e de como uma necessidade fisiológica se complica e torna psicológica, e todos os preservativos gastos, km percorridos, exudação libertada valem sempre a pena.
Falemos de sexo, pois no final acabamos sempre por voltar ao mesmo assunto.
"Galaxie Erotique"...
Enquanto adormecia sentia aquele corpo que dormia do seu lado como se fizesse parte do seu próprio corpo, a textura da pele já lhe era familiar, enquanto dormiam a temperatura subiu, num estado febril começou a relembrar de como tudo tinha acontecido. Do nada, apenas como que por um acto de ilusão provocado pelo melhor ilusionista do mundo. Estava olhos nos olhos com aquele olhar que lhe prendia a atenção e dificultava a respiração, os pensamentos tornavam-se vagos e tudo o que passava na sua cabeça era a cor daqueles olhos que o olhavam com uma doçura e inocência que nunca antes sentira. Quase sem se conhecerem tocaram-se como se já conhecessem todos os cantos do corpo um do outro, a intimidade crescia descontroladamente, tudo parecia etéreo, e demasiado perfeito. Na rua sob o olhar disfarçadamente atento dos transeuntes beijaram-se como se esse fosse o ultimo e sempre o primeiro beijo que dariam, as cores tornavam-se mais brilhantes, e o coração disparava a cada respiração, que se tornava sexualmente ofegante. O tempo não passava, tudo parecia que girava em torno dessa energia que emanava de ambos. Foram para casa, o som era o de uma melodia em francês, "Galaxie Erotique", o ambiente era avermelhado e quente, algo acontecia, tocaram-se envergonhadamente como se quisessem descobrir a reacção a cada toque, despiram-se, a presença de ambos os corpos nus estimulava ainda mais ao toque, enrolados num manto de luz vermelha, mapearam com todos os sentidos cada centimetero de pele, a luz ofuscava os sentidos e a adrenalina aumentava com o odor sexual que emanava da energia que os envolvia, a temperatura subia a cada toque, "Je t'adore, je t'adore" tocava baixinho no radio enquanto que com toda precisão de quem toca num copo de cristal pela primeira vez envolveram-se como se ambos se experimentassem, como se aquela fosse a primeira noite e ao mesmo tempo a ultima, a respiração tornava-se mais forte, os gemidos e as palavras tomaram um volume mais alto, agarraram-se e as unhas fincaram bem fundo na carne nua, em gemidos de prazer alcançaram o êxtase, como se uma cortina os tivesse transportado para uma realidade diferente, onde nada é real. Abraçaram-se e sentiram-se sem que o tempo os afectasse. Dormiram e acordaram como se sempre estivessem estado ali, naquela posição, como se ambos fossem um só.
Acordava hoje com aquele corpo quente, ardentemente febril, que aos poucos desaparecia, sentia o espaço aumentar necessitava que algo ocupasse o lugar vazio do corpo febril que abraçava. Desaparecia, e ele acordou como se tudo fosse um sonho, demasiado perfeito para ser real, demasiado ideal para ser verdadeiro.
Parado na entrada do palácio, vem-lhe a memoria a cor daqueles olhos que o olhavam com uma doçura e inocência que nunca antes sentira. Dentro do palácio varias vozes o chamavam. Lá dentro um odor de luxuria e desprendimento tomavam conta dos corpos dos presentes que se agarravam e possuíam despudoradamente, como que se o final da existência da humanidade se celebrasse naquela noite e não existisse o amanhã, chamavam-no e arrancavam-lhe as roupas. Friamente beijou os primeiros lábios que tocaram os seus, envolveu-se com aquela multidão enlouquecida pelo álcool e pelo cheiro de hormonas que pairava no ar. Sempre com a mesma atitude fria e desprendida de si mesmo deixou-se levar até ao fim, sempre com a imagem daqueles olhos, daquele olhar que lhe prendia a atenção e dificultava a respiração.
Acordou, os desconhecidos que preenchiam agora o vazio, desconcertadamente levantavam-se e saiam, como se nunca se tivessem visto. fechou os olhos e adormeceu.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Capítulo III

III Capítulo

Tenho sentido a tua falta ultimamente.
Eu que pensava já te ter esquecido… Impossível!
És exactamente daquele tipo de pessoas que não se esquece, por mais que se tente.
Acho que ainda te amo…
Queria poder dizer que estava tudo acabado, que já não passavas de uma vaga memória da minha curta passagem pelo mundo dos vivos, mas não posso. Parece que vou passar o resto da eternidade contigo no pensamento.
Onde estarás neste momento? Será que estás bem? Feliz? Só? Em que estarás a pensar?
Daria qualquer coisa só para te ver uma última vez. Qualquer coisa…
A Primavera vai chegar em breve. Primavera… Lembras-te?... Um ano… Estranho como tanta coisa pode acontecer no espaço de um ano.
O calor chegou. Com ele vieram os vermes… Estou a apodrecer… Sinto-os devorarem-me …É horrível! Entram por todos os poros e consomem-me as entranhas! Sinto-os dentro de mim! Por favor fá-los sair! E este cheiro! Este cheiro pestilento! Acho que piorou bastante com a chegada do calor.
Porque é que eu tenho que passar por isto? Será que não bastava estar morta e ter consciência disso?! Também tenho que assistir à minha própria decomposição?!... Ainda falam do Inferno, do Purgatório… Não creio que exista coisa pior que vermo-nos apodrecer, desaparecer, sermos engolidos para o vazio do esquecimento… Tudo desaparece… Tudo.
Ainda não percebo muito da morte. Acho que mesmo estando morta também é preciso aprender. Dizem que, dependendo das condições do solo e do grau de humidade, o corpo humano demora em média sete anos a decompor-se completamente, mas acho que eu vou demorar menos tempo. Os vermes demoraram tempo a aparecer, mas pelos vistos trabalham bem.
Estou a desaparecer.
E tu não te importas…
Os vermes rastejam e dissecam-me… Eu já não aguento mais! Quando será que vou partir? Abandonar este corpo? Reencarnar?
Estou farta!!! Farta de viver neste minúsculo rectângulo, coberta pela ignorância. Não sei o que se passa aí ou em lado nenhum! Não sei nada de nada! Nada! Merda! O que é que se está a passar?! Não era suposto eu ir para o Céu ou para o Inferno? Será que nem lá me querem?! Será que sou assim tão má?!
Estou só… bem, sempre tenho os vermes, mas eles não são grande coisa como companhia…
E tu não te importas!!
Eu nunca te vou perdoar! Nem uma única visita… Será que não sentes remorsos pelo que me fizeste?
Eu tinha uma vida, merda! Era uma porcaria, mas mesmo assim sempre era uma vida! Bem melhor que estar aqui, a ser comida por estes seres repelentes!
Odeio-te!
Odeio-te como nunca odiei ninguém na vida!
Mas um dia eu vou sair deste buraco! Juro! E vou vingar-me! Vou vingar-me de ti e de todos aqueles que me ignoram.
Vou vingar-me!

Nunca te consegui entender. Dizias que eu tinha dupla personalidade, mas tu tinhas quádrupla ou quíntupla. Conseguias ser tão diferente que parecia que todos os dias conhecia uma pessoa diferente. Num dia eras um menino todo certinho, bem comportado, todo limpinho, simpático; no outro eras um cabrão safado. Um cabrão deliciosamente safado. Será que ainda continuas assim ou era apenas um jogo perverso para me dar a volta ao miolo? Seja como for devo dizer-te que foste extremamente eficaz.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Fim do II Capitulo

(Continuação)


Estou morta.
Será que ainda te lembras de mim?
Será que ainda te lembras de como fomos felizes? Infantilmente felizes?
Eu lembro-me…
Aliás, não tenho feito outra coisa ultimamente senão lembrar-me do que passou.
Diz-se que não é saudável viver no passado, que devemos antes concentrarmo-nos no futuro, mas como morta acho que não tenho grande futuro, e o meu presente também não é grande coisa. Só me resta o passado como consolo duma tristeza que não sinto, duma frustração que não é minha.
A maior parte das pessoas quando envelhece diz que desperdiçou os melhores anos da sua vida. No entanto, quando perguntamos o que gostariam de ter feito, não sabem o que responder. Deus, como são estúpidos! Passam tanto tempo a queixarem-se do que não fizeram, que não lhes sobra tempo para fazerem alguma coisa, aqui, agora!!!
Como eu não tenho mais nada para fazer agora, e tenho toda a eternidade pela frente, bem posso recordar à vontade.
Recordo-te a ti…
Meu Anjo de Olhos Tristes…
Conseguiste alterar por completo a minha vida. Fizeste-me gostar, fazer, pensar… coisas que nunca me tinham passado pela cabeça. Mas eu gostava… gostava muito. Quase tanto como gostava de ti. Só mesmo tu para conseguires que eu fizesse coisas do género: comer mil-folhas quando não tinha fome, apanhar bebedeiras descomunais, deitar-me tarde, baldar-me às aulas, lixar-me para os estudos…Para falar a verdade não sei se foste tu quem me fez fazer todas aquelas coisas, mas foste certamente tu quem me deu coragem para as fazer. Contigo podia ser quem eu realmente era. O que eu pensava ser…
Tão parecidos…
Nesta vida não fomos mais que dois erros que pensaram que ao juntarem-se se anulariam e tornariam certos.
Contigo não consegui mais que afundar-me até ao pescoço na lama da desgraça.
Mas também conseguir subir às nuvens…
Sometimes…
Tão parecidos…
Um dia perguntaram-te como eras realmente, para definires a tua personalidade. Eu respondi por ti: “Ele não existe, ele é apenas o que os outros querem que ele seja”. E tu concordaste.
Nesse momento descobri tudo sobre ti. Descobri quem realmente eras. Eras eu. Descobri que bastava conhecer-me a mim para te conhecer a ti também.
Tão parecidos…

Por vezes imagino o que estarás a fazer neste momento, mas não consigo imaginar nada de decente.
Houve uma vez que eu te imaginei numa enorme catedral, maravilhosa, realizando a tua maior fantasia sexual. Ainda te lembras?... “Ser possuído por duas vampiras em cima de um altar”… Eras deliciosamente pervertido.
Por vezes imagino-te com outra rapariga…. Fico completamente descontrolada. Só a ideia faz-me confusão. Eu não consigo seque suportar a ideia de que possas gostar de outra rapariga. Mas gostas… certamente gostas.
Chamaste-me possessiva…
Acho que até nisso acertaste.
Podes vir a gostar de muitas outras raparigas, morar com elas, casar-te… talvez…no entanto… merda! Nem consigo explicar o que realmente sinto! Acho que a humidade enferrujou o meu cérebro! “Cérebro?!... Qual cérebro?!” Pois é… A verdade é que por mais raparigas, mulheres, velhas que cruzem o teu caminho, podes estar certo quer nenhuma te vai adorar como eu te adorei.
Eu teria dado a minha vida por ti sem pensar duas vezes, e mesmo assim…tu roubaste-ma…até a vida me roubaste.

Estou a atravessar uma fase de confusão.
Acho que todos os mortos têm esse direito de vez em quando.
Para mal dos meus pecados (que não são poucos), consigo ouvir tudo o que se passa à superfície. O barulho que as pessoas fazem quando vêm visitar os outros mortos, o barulho das pás a escavarem novas sepulturas, o choro aflitivo dos familiares dos mortos…
Tudo…
Mas o que tem incomodado mais tem sido uns saloios de uns bêbedos que têm vindo gozar a pedrada sobre a minha sepultura. Apesar da desarrumação que eles fazem, do barulho, e das vezes que eles vomitam, eu até que nem me posso queixar muito. Pouco a pouco eles tornaram-se numa forma de companhia. A minha única forma de companhia.
Ao todo consigo diferenciar cinco vozes. São todas masculinas e pelo tom de voz e pelas conversas pouco maduras posso deduzir que não devem ter mais que dezoito ou dezanove anos.
Ainda me lembro da primeira vez que eles vieram.
Aqui em baixo é um pouco difícil distinguir o dia da noite, mas sei que eles vieram de noite. Comecei por ouvir passos que à medida que se foram aproximando se tornaram mais pesados e ruidosos, como o tropel de cavalos de corrida. De repente dois corpos caíram pesadamente sobre a minha sepultura. Jarras para o chão, barulho de vidros partidos… Merda!! O que aquilo me enervou naquela altura!... Quem seriam aqueles anormais que me andavam a foder a campa?! Já não bastava o facto de estar morta, ainda tinha que aturar aquele bando de animais a estragarer-me a decoração da casa!
Os atrasados não paravam de rir. Um dos que tinha caído sobre a lápide disse:
“ Merda… Fodi as costas trodas!”
“Eu também, man, …acho que até no cú tenho cacos de vidro!”
“Levantem-se daí! Deixem o pobre coitado descansar em paz! Não acham que já beberam demais?!”
“Olh’ó betinho! És um cortes, meu!”
“Hei, deixa ver o velho que aí está enterrado! Passa aí o isqueiro, man!”
“Iá, ‘bora ver!”
Fez-se um momento de silêncio. Eles deviam estar a ver a minha fotografia, coisa que não me agradou nada.
Naquele momento só me apetecia aparecer à frente deles e pregar-lhes um cagaço que eles nunca mais esquecessem, mas não pude… Merda!! Porque é que podemos tudo menos sair daqui?!
De qualquer forma os comentários não se fizeram esperar:
“ Iá man, é uma gaja!”
“Iá man, até nem era má de todo…”
“Hei, vê aí que idade é que ela tinha quando bateu as botas.”
“ Eh pá! Sabes bem que não sou bom a fazer contas de cabeça…”
“Chama aí o betinho, ele deve saber.”
“Ó puto, chega aqui! Anda cá ver esta gaja!”
“ Vocês são uns doentes! Vamos mas é embora! Daqui a nada vai amanhecer… É a isto que vocês chamam uma noite divertida?!”
“Não curtes cemitérios, é?”
“Não, não curto!”
“Eh pá, diz só a idade da gaja!”
Mais um momento de silêncio, mas este foi ainda mais curto que o anterior.
“Então pá?!”
“Ía, man… o betinho ‘tá gamado aí na….”
“É parvo ou quê?! Ela morreu com dezasseis anos… vamos mas é embora!”
Foram-se embora… Fiquei sozinha.
Durante bastante tempo fiquei a pensar naquela estranha visita.
Em seis meses ninguém me tinha visitado, excepto a minha mãe.
Nem mesmo tu… Coisa que nem estranho, não é?!
Eram cinco rapazes… Quatro com um Q.I. inferior ao de um tijolo, e um outro que até apresentava algumas características humanas.
Foi exactamente nesse que eu fiquei a pensar mais tempo.
Não sei por quê…
Não sei se sabes, mas estar-se morta é uma merda, especialmente quando se está só.
E aquele rapaz preocupou-se comigo… Deu-me atenção…

Uma coisa que me enerva aqui em baixo é perder a noção do tempo com muita facilidade. Não sei ao certo quanto tempo se passou, mas sei que não foi muito, até que finalmente os rapazes voltaram.
Eles conseguiram ser detestavelmente previsíveis. Chegaram da mesma forma ruidosa, estavam novamente bêbedos e destruíram mais um pouco da minha sepultura.
“Ìa meu, …caímos em cima da tal gaja!” “Iá meu, acho que é por causa dela que o meu irmão não quis vir. Apanhou um trauma, ou essas merdas…”
“ Merda meu, …acho que bebi demais… meu, ‘tou aqui, ‘tou-me a gregar todo!...”
E gregou-se mesmo!
Acho que eu mesma, só pela ideia dele lá em cima a vomitar-se todo, me apeteceu vomitar também. Eram realmente nojentos!
Mas mesmo assim eram a minha única companhia…
Agora também já conhecia a voz do irmão do rapaz. Como é estranho… dois irmãos, o mesmo sangue, parte dos mesmos cromossomas, e … tão diferentes.
Passaram o resto do tempo a contar piadas sem piada, a beberem, a gregarem-se, a cantar canções que também me agoniaram, a beberem, a gregarem-se, a fazer barulho, a gregarem-se… enfim, os cromos mais pareciam anorécticos crónicos, tantas foram as vezes que eles vomitaram.
Fiquei triste com a ausência do rapaz. Gostaria que ele tivesse vindo, poder ouvir a sua voz, mas ele não veio… Não veio nessa noite, nem nas que seguiram. O rapaz nunca mais veio com os atrasados mentais.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

II Capítulo

II Capítulo

Ultimamente a solidão tem sido difícil de suportar.
Eu, que adorava estar só, afogar-me nos segundos hiper-concentrados, embriagar-me com o silêncio, começo a ficar farta.
Nada…
Nem os vermes se deram ao trabalho de me vir visitar.
AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!
Este silêncio ensurdecedor está a levar-me à loucura! Nada… Apenas este rectângulo de madeira apertado e malcheiroso, a porcaria das rendas que me fodem constantemente os olhos, e este silêncio… esta escuridão monótona, este ar pesado que nem ar é… Nada! Eu daria tudo para voltar aí acima…
Voltar a fazer todas aquelas coisas que me faziam feliz. Dançar… Sentir o ar fresco a bater-me no rosto… Envolver-me no sorriso das crianças… Comer doces impulsivamente… Rebolar na relva molhada… Gritar… Sentir aquela felicidade ingénua que quase nos leva às lágrimas.
É tarde demais…
Consegui perder o que tinha de melhor…
Correcção!!1
Tu roubaste-mo!
Cabrão! Amo-te…

“ Amo-te”. Acho que deve ser das palavras mais foleiras do vocabulário. “Amo-te” é como a palavra “ Deus”. Diz-se tantas vezes e em tantos contextos, que perde o significado por completo. Torna-se banal. Diz-se sem sentimento, como as preposições ou os determinantes. Torna-se uma palavra como qualquer outra…
Eu nunca a disse.
Sentia-a, mas nunca a disse. Talvez por ser tão importante para mim, nunca me atrevi a pronunciá-la. Tinha medo. Podia dar azar…
Tu também não.
Ainda bem.
Penso que se o tivesses dito eu não acreditaria.
Uma coisa que eu aprendi é que as palavras só estragam. Não há nada mais revelador, mais confidencial que o silêncio. Cinco segundos de silêncio podem dizer mais que uma vida de diálogo. Talvez porque usamos mal as palavras. Esgotamo-las, dissecamo-las em situações que não são mais que uma completa chachada. Apenas palavras… Sem significado, sem sentimento, sem conteúdo, sem alma… apenas palavras.
(continua...)

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Continuação do I Capítulo

Se é verdade que os nossos cromossomas determinam o que vamos ser, então eu quero saber quem foi o cabrão que fabricou os meus para exigir um reembolso.
É azar a mais para uma pessoa só!!!!!!!
Nasci na altura errada, na família errada, na cidade errada, no país errado, no continente errado, no planeta errado, na galáxia errada e acho que nem na porcaria do Universo acertei. Mas pronto… Isso até se poderia aceitar. Agora nascer com os cromossomas errados?!!! Isso é azar a mais!!! Definitivamente!!!
Não sei ao certo o que pensas da tua vida, mas a minha sempre foi uma merda! Especialmente a partir do momento que passaste a ser o centro gravitacional dela. Porquê? Porque é que tinhas que a invadir assim?! Eu, que sempre tinha estado no meu cantinho, sossegadinha no meu canto, lixando tudo à medida que os segundos passavam. Mas ao menos lixava tudo porque queria. Tinha consciência do que fazia.
Apareceste.
Confusão. Caos. Desastre nuclear. Bomba atómica.
Cabeça explode.
Coração pára.
Porquê?!
Porquê essa necessidade de me confundir e pôr sombras na alma?
Confessa? Tu adoravas quando eu te idolatrava. Adoravas todos os meus miminhos, todas as minhas atenções. E especialmente adoravas poder desprezar-me pois estavas certo de que bastaria estalares os dedos para que eu voltasse para ti a abanar o rabinho.
Ego…
Nunca antes tinha conhecido um ego como o teu. O maior, o mais exuberante, o mais poderoso… Enfim, acho que muitos rapazes gostariam de ter uma pila como o teu ego.

O Despertar da Primavera…
Quando penso em primavera lembro-me sempre daquele gajo que já morreu… Vivaldi, creio eu. Não sei porquê. O desabrochar das plantinhas, …as abelhinhas e os passarinhos e as abelhinhas a foderem que nem animais, …os caçadores a acertarem-lhes na peida… A Primavera com todos os seus encantos.
A primeira vez que te vi…
Quando se diz “ a primeira vez que te vi” pensa-se: “ quando te conheci”, mas é mentira. As pessoas associam assim as palavras porque a maior parte delas não vê o mundo onde vive, apenas olha para ele. Mas eu vi-te… E nunca mais tirei os olhos de ti.
Babei-me. Arfei. Gani. Ladrei. Urinei. Beijei um gay.
Apaixonei-me. E para sempre fiquei apaixonada.
Foi daquelas coisas que só nos dão uma vez na vida pois se dessem duas, matar-nos-iam.
Almas gémeas.
Não sei explicar como era, mas nem mesmo dois gémeos siameses a partilharem a mesma cabeça conseguiam ser tão parecidos. Nós não éramos parecidos, éramos iguais. Os mesmos gostos, o mesmo olhar perdido e cínico de quem espera o que nunca vem… Dizias: “ Odeio pessoas cínicas!” Estranho… Normalmente odiamos os nossos próprios defeitos.
Duas semanas de conhecimento, intimidade, e… fiquei completamente apanhada.
Vício…
Tive todos os vícios que se possam imaginar, mas nenhum tão absorvente como tu.
Tu. Eu. Nós. A mesma pessoa.

Não sei porquê, mas sou uma pessoa que associa muito os cheiros às situações. Para mim cada momento tem que ter um cheiro. Naquela altura tudo cheirava como a espuma que punhas no cabelo. Cheiro a espuma barata, mas que era indispensável para conseguires domá-lo.

O que será a atracção entre duas pessoas?
Já inventaram muitas teorias sobre o assunto, mas nenhuma me conseguiu convencer. Nada me convence para dizer a verdade. Só acredito naquilo que vejo, que sinto, que vivo… E estar atraída por ti era algo… como dizer… qualquer coisa como… estar atraída por ti!!!!
Podia estar cinco horas seguidas a olhar para ti sem me cansar. Mas também podia desviar os olhos cinco segundos depois.
Nenhum dia era igual ao outro.
Esqueci a palavra rotina.
Ignorei o resto do mundo.
Ri-me da cara da desgraça.
Fiquei a arrotar a felicidade para o resto da vida.
Pena que tenha sido por pouco tempo.

Um livro...

Os textos seguintes pertencem a uma livro que eu escrevi algures entre os meus dezassete e os meus dezanove anos. Um nascimento de parto doloroso, complicado e difícil. A primeira crítica foi que não estava mauzito, talvez bom para as donas de casa passarem tempo. Se se conseguirem lembrar de algo pior para dizer, por favor não se acanhem e partilhem.
Ou então, se também vocês escreveram algo tão mau e achem que nenhuma editora é digna de lhe deitar a mão, partilhem também. Vamos mostrar ao mundo a nossa falta de talento!!!!!!




I Capítulo


Estou morta…
E perguntam-me vocês: “ Ah sim?!! Então, ó totó, como é que estás a escrever? Tornaste-te numa vampira ou morta-viva?” E eu respondo: “Sei lá!”
A verdade é que eu não acredito nessas merdas. Só me permito acreditar naquilo que vejo, ou sinto, ou… e neste momento sinto que estou morta. É estranho, eu sei, mas este mundo está cheio de coisas estranhas e tentar compreendê-las não seria mais que um exercício de estupidez da nossa parte. Eu, por exemplo. Nunca me dei ao trabalho de compreender nada, talvez porque eu própria sempre fui um ser imcompreendido.
Agora, que estou neste estado por assim dizer diferente, gostaria de poder mudar tudo. Mas é tarde demais.
Dizem que nunca é tarde demais para nada, mas diz-se muita coisa e quase nada corresponde à realidade. Afinal, que sabem eles da morte? Nada!! Nada de nada! A maior parte dos tansos que dizem essas merdas não passam duns frustrados, que se tentam agarrar a qualquer coisa, quanto mais não seja à futilidade das próprias palavras.
Eu por mim, tentei agarrar-me a outra coisa, mas também não deu muito resultado. Mas isso é uma outra história…
Neste momento gostaria de voltar a viver. Só por alguns instantes, o suficiente para me poder suicidar. Gostaria de poder ter uma morte mais digna, mas não creio que existam mortes dignas. Apenas morte. Só sei que não me queria matar como essas histéricas que tomam comprimidos e merdas desse género, normalmente inofensivos, mas que elas acham muito “in” e lhes permite darem um pouco nas vistas.
Li em qualquer lado que só 25% das mulheres que tentem o suicídio atingem o objectivo. Pudera!!! Como poderiam morrer se não fazem mais que tomar comprimidos para as dores menstruais, anti-alérgicos ou andarem para aí a provar produtos de limpeza?! Até na morte são piegas!!! Nunca escolhem nada que faça sofrer. Aposto que a maior parte delas são donas de casa procurando um pouco de atenção por parte dos maridos. Pena quer algumas se enganem e batam mesmo as botas.
Eu queria morrer como um homem!!!!
Esses ao menos quando planeiam, planeiam em condições e conseguem quase sempre atingir o seu objectivo.
Homens… Palhaços… Nojentos… Testosterona de calças… Tudo sinónimos para o mesmo mal.
Homens…
Há quem pense que passei a banquete de vermes por causa de um. Ah!! Como se algum homem conseguisse tal coisa!... Mas por acaso desta vez até conseguiu.
Não me lembro ao certo do seu nome… Poderia ter sido qualquer um. Afinal o nome nunca diz nada… Ou talvez diga tudo… De qualquer forma não me consigo lembrar. Ou talvez não me queira lembrar.
Era lindo… Cabelo que fazia lembrar uma esfregona velha, olhos que mudavam de cor como as pessoas limpinhas mudam de cuecas, lábios finos e bem delineados, e um nariz…. E um nariz… E um corpo!... Ai… Ai…Conhecia cada milímetro, cada pilosidade… Seria capaz de o identificar no escuro, apenas pelo toque, com umas luvas de pêlo se fosse preciso.
Palhaço… Tudo em ti era revoltantemente perfeito, até mesmo os teus defeitos.
Adorei-te como se pode adorar um deus, o céu, as estrelas, ou um rolo de Scotex… Adorei-te… Talvez ainda te adore… Talvez te vá adorar para sempre… Mas que importa?
Nunca soube muito de ti… Mas agora gostaria de estar viva. Só para te poder matar. Por tua culpa passei os piores dias da minha vida. Também passei os melhores, mas isso em nada diminui a tua culpa. Nada te desculpa
Tu mataste-me…
Morri há cerca de dois meses. Ainda continuo uma morta jeitosa, por assim dizer. Pelos vistos os vermes ainda não foram avisados da minha presença e o meu caixão continua impecavelmente limpo. Quanto ao resto não sei bem… A minha roupa continua impecavelmente engomada, talvez porque eu sou u8~ma morta muito caseira e não gosto de andar por aí a laurear a pevide. No entanto não dou nada nem pelo meu odor, nem pela cor da minha tromba. Dizem que os mortos são brancos, mas no entanto tenho visto a minha pele mudar de tonalidade. Como os teus olhos… Começou por ser branca, é verdade, mas com o passar do tempo foi ficando ligeiramente violeta, amarelada, até que agora parece ter estacionado no verde. Como os teus olhos…
Tive uma morte lixada e a bem dizer um enterro de merda. Nem a foda do meu último desejo realizaram. Lembras-te daquelas cenas que eu dizia acerca da minha cremação e depois espalharem as minhas cinzas ao vento? ‘Tás a ver? Pois então, o meu funeral não teve nada a ver!
Tive um funeral de merda, com um padre de merda, com um acompanhamento de merda… Tu nem te deste ao trabalho de aparecer. Dizias: “ Odeio cemitérios!” Vês?!! Era por isso que eu queria ser cremada!!! Mas estar-se enterrado é bom. A terra. A chuva. A humidade que insiste em penetrar-me o esqueleto. O barulho dos outros mortos. Este cheiro repelente a cozinha do McDonalds. Estar-se morto é realmente … Bom.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

The begining is the end and the end is the begining

Este blog é para todos aqueles que pensam suicidar-se, mudar de cidade, mudar de país, assaltar um banco, violar a(o) vizinha(o) do lado, dar um tiro nos cornos do prof que mais odeiam, fazer sky-diving, para todos os que se consideram freaks, nerds, párias ou simplesmente patéticos, para os alucinados ou simplesmente alucinogénicos, para os decepcionados, revoltados, anarquistas, intervencionistas, inconformistas, narcisistas, masoquistas, sádicos, para os que têm muito a dizer e ninguém para os ouvir. Para todos vocês e de vocês, mas sempre com muita classe, claro!!!!