terça-feira, 28 de agosto de 2007

Um livro...

Os textos seguintes pertencem a uma livro que eu escrevi algures entre os meus dezassete e os meus dezanove anos. Um nascimento de parto doloroso, complicado e difícil. A primeira crítica foi que não estava mauzito, talvez bom para as donas de casa passarem tempo. Se se conseguirem lembrar de algo pior para dizer, por favor não se acanhem e partilhem.
Ou então, se também vocês escreveram algo tão mau e achem que nenhuma editora é digna de lhe deitar a mão, partilhem também. Vamos mostrar ao mundo a nossa falta de talento!!!!!!




I Capítulo


Estou morta…
E perguntam-me vocês: “ Ah sim?!! Então, ó totó, como é que estás a escrever? Tornaste-te numa vampira ou morta-viva?” E eu respondo: “Sei lá!”
A verdade é que eu não acredito nessas merdas. Só me permito acreditar naquilo que vejo, ou sinto, ou… e neste momento sinto que estou morta. É estranho, eu sei, mas este mundo está cheio de coisas estranhas e tentar compreendê-las não seria mais que um exercício de estupidez da nossa parte. Eu, por exemplo. Nunca me dei ao trabalho de compreender nada, talvez porque eu própria sempre fui um ser imcompreendido.
Agora, que estou neste estado por assim dizer diferente, gostaria de poder mudar tudo. Mas é tarde demais.
Dizem que nunca é tarde demais para nada, mas diz-se muita coisa e quase nada corresponde à realidade. Afinal, que sabem eles da morte? Nada!! Nada de nada! A maior parte dos tansos que dizem essas merdas não passam duns frustrados, que se tentam agarrar a qualquer coisa, quanto mais não seja à futilidade das próprias palavras.
Eu por mim, tentei agarrar-me a outra coisa, mas também não deu muito resultado. Mas isso é uma outra história…
Neste momento gostaria de voltar a viver. Só por alguns instantes, o suficiente para me poder suicidar. Gostaria de poder ter uma morte mais digna, mas não creio que existam mortes dignas. Apenas morte. Só sei que não me queria matar como essas histéricas que tomam comprimidos e merdas desse género, normalmente inofensivos, mas que elas acham muito “in” e lhes permite darem um pouco nas vistas.
Li em qualquer lado que só 25% das mulheres que tentem o suicídio atingem o objectivo. Pudera!!! Como poderiam morrer se não fazem mais que tomar comprimidos para as dores menstruais, anti-alérgicos ou andarem para aí a provar produtos de limpeza?! Até na morte são piegas!!! Nunca escolhem nada que faça sofrer. Aposto que a maior parte delas são donas de casa procurando um pouco de atenção por parte dos maridos. Pena quer algumas se enganem e batam mesmo as botas.
Eu queria morrer como um homem!!!!
Esses ao menos quando planeiam, planeiam em condições e conseguem quase sempre atingir o seu objectivo.
Homens… Palhaços… Nojentos… Testosterona de calças… Tudo sinónimos para o mesmo mal.
Homens…
Há quem pense que passei a banquete de vermes por causa de um. Ah!! Como se algum homem conseguisse tal coisa!... Mas por acaso desta vez até conseguiu.
Não me lembro ao certo do seu nome… Poderia ter sido qualquer um. Afinal o nome nunca diz nada… Ou talvez diga tudo… De qualquer forma não me consigo lembrar. Ou talvez não me queira lembrar.
Era lindo… Cabelo que fazia lembrar uma esfregona velha, olhos que mudavam de cor como as pessoas limpinhas mudam de cuecas, lábios finos e bem delineados, e um nariz…. E um nariz… E um corpo!... Ai… Ai…Conhecia cada milímetro, cada pilosidade… Seria capaz de o identificar no escuro, apenas pelo toque, com umas luvas de pêlo se fosse preciso.
Palhaço… Tudo em ti era revoltantemente perfeito, até mesmo os teus defeitos.
Adorei-te como se pode adorar um deus, o céu, as estrelas, ou um rolo de Scotex… Adorei-te… Talvez ainda te adore… Talvez te vá adorar para sempre… Mas que importa?
Nunca soube muito de ti… Mas agora gostaria de estar viva. Só para te poder matar. Por tua culpa passei os piores dias da minha vida. Também passei os melhores, mas isso em nada diminui a tua culpa. Nada te desculpa
Tu mataste-me…
Morri há cerca de dois meses. Ainda continuo uma morta jeitosa, por assim dizer. Pelos vistos os vermes ainda não foram avisados da minha presença e o meu caixão continua impecavelmente limpo. Quanto ao resto não sei bem… A minha roupa continua impecavelmente engomada, talvez porque eu sou u8~ma morta muito caseira e não gosto de andar por aí a laurear a pevide. No entanto não dou nada nem pelo meu odor, nem pela cor da minha tromba. Dizem que os mortos são brancos, mas no entanto tenho visto a minha pele mudar de tonalidade. Como os teus olhos… Começou por ser branca, é verdade, mas com o passar do tempo foi ficando ligeiramente violeta, amarelada, até que agora parece ter estacionado no verde. Como os teus olhos…
Tive uma morte lixada e a bem dizer um enterro de merda. Nem a foda do meu último desejo realizaram. Lembras-te daquelas cenas que eu dizia acerca da minha cremação e depois espalharem as minhas cinzas ao vento? ‘Tás a ver? Pois então, o meu funeral não teve nada a ver!
Tive um funeral de merda, com um padre de merda, com um acompanhamento de merda… Tu nem te deste ao trabalho de aparecer. Dizias: “ Odeio cemitérios!” Vês?!! Era por isso que eu queria ser cremada!!! Mas estar-se enterrado é bom. A terra. A chuva. A humidade que insiste em penetrar-me o esqueleto. O barulho dos outros mortos. Este cheiro repelente a cozinha do McDonalds. Estar-se morto é realmente … Bom.

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