quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Fim do IX Capítulo




Eu sei que passo o meu tempo a contradizer-me, mas por vezes sinto saudades do meu caixão. A sério!
Antes estava sempre a queixar-me do cheiro, de como os vermes me incomodavam… Mas lá ao menos não tinha muito trabalho, não tinha nada para fazer, nada para ver… Via-me simplesmente apodrecer.
Agora sinto que não tenho tempo para nada.
Estou farta do mundo dos vivos!
Tudo tão complicado!
Um mundo de merda, podes crer!
Qualquer dia vou passar umas férias na minha sepultura. Descansar o meu esqueleto uns quinze dias e fico como nova!
Ah! Mas é verdade! O rapaz roubou o meu corpo.
Ainda me pergunto para que raio ele queria aquela velha carcaça.
Talvez o use para fazer magia negra…
Talvez o embalsame e quando tiver para aí virado, fode-me até me saltar palha pelos olhos.
Ou talvez me adore…Será que é amor?
Tão lindo não é?... Eu sei… Eu sei…
Qualquer dia ainda vou ver o que fez com o meu velho esqueleto.

Era em momentos como este que eu gostaria de poder escrever algo acerca dos teus olhos ou da pele macia das tuas mãos.
É mesmo uma merda não poder pegar numa folha de papel e numa caneta e escrever, escrever…até perder a inspiração e rasgar tudo o que tinha escrito. Ou tentar de novo… ou beber até me voltar a inspiração.
O álcool sempre me inspirou. Abria-me os portões do meu subconsciente e permitia-me escrever tudo aquilo que a minha consciência castradora me impedia revelar.
Tornava-me numa criatura deveras estranha quando me embebedava.
Entrava num período cósmico que incluía ficar horas a olhar para um tijolo para o tentar compreender. Ficava parada, contemplando algo num longo período de meditação. Não falava pois tinha preguiça. Era como se o meu cérebro não conseguisse executar algo tão simples como abrir e fechar a boca e deixar que saísse som.
No entanto tinha pensamentos extremamente lúcidos e organizados.
O pouco que eu dizia era coerente e se por acaso agarrava numa caneta e escrevia o que me ia na alma, as palavras fluíam de mim como a urina flúi da bexiga depois de beber dois litros de cerveja.
Tu pelo contrário eras um actor nato!
Nem mesmo quando estavas podre de bêbedo, davas a entender.
Nem os teus olhos te denunciavam…
Só mesmo quem te conhecesse muito bem e prestasse muita atenção ao que tu fazias, é que poderia apanhar-te em falso. Eram certas atitudes que nunca terias se estivesses sóbrio. Tornavas-te obsessivamente cuidadoso com cada gesto, cada palavra.

No arquivo das minhas lembranças tu virás sempre em primeiro lugar.

Todas as nossas correspondências na aula, todos os teus poemas, todos os teus pensamentos escritos que eu consegui guardar num dossier deveras piroso e demasiado pequeno para abarcar tantos sentimentos, e ideias, e sonhos…
Era em noites como esta que eu me sentava na minha cama e arquivava todos os acontecimentos no meu dossier. Colava cada imagem, cada palavra, e virava a folha.
Amanhã será um novo dia…
E uma nova folha também…

sábado, 17 de novembro de 2007

Continuação do IX Capítulo

Foram tantas as vezes que desejei ser perfeita.
Tantas vezes desejei ser tudo aquilo com que um dia sonhaste.
Mas não sou.
Estou muito longe de o ser.
Sempre desejei ser daquele tipo de raparigas cheias de qualidades e pobres em defeitos, de quem é impossível não gostar.
‘Tá bem, ‘tá!
Fizeram-me exactamente ao contrário.
Beleza?! Ah! Quando Deus distribuiu a beleza pela humanidade eu devia estar na casa de banho a mudar o tampão!
Tive uma sorte do caraças pois consegui uma ou duas qualidades numa promoção generosa, e gostarem de mim, só um grupo muito restrito de totós é que conseguia aturar-me.
Eu era verdadeiramente impossível!
O meu humor parecia um elevador dum hotel super concorrido., ora estava na cave, ora estava na Penthouse.
Por vezes passava-me uma coisa má pelos olhos e disparava a minha raiva contra todos ao mínimo movimento. Outras vezes mergulhava num estado de depressão tão profundo que bastava um pequeno toque para que eu me desfizesse em pó.
Eu era realmente impossível!
Não sei como conseguiste aturar-me…
Talvez fosse a tua infinita paciência. Era por isso que eu te adorava.
Mas perfeição?... Bah!! Ninguém é perfeito. Pelo menos perfeito no sentido geral. Agora apercebo-me que o mais importante é sermos perfeitos para alguém e que esse alguém seja perfeito aos nossos olhos.
Tu também não eras a melhor coisa que se inventou depois da batata frita, é bom que se note.
Tinhas toneladas de defeitos absolutamente detestáveis, mas sabes, até aos defeitos eu achava graça.

Eras perfeitamente imperfeito…
Era por isso que nos dávamos tão bem…
Cabrão!
“Vaca”!
Ai!... Vamos lá ver se não queres levar um enxerto de porrada?
“E vamos lá ver se não queres levar uma nos cornos!”
Palhaço!
Puta leprosa!
Vês?! É disto que eu estou a falar, da forma como nos dávamos reluzentemente bem.
Podíamo-nos insultar com as palavras mais ordinárias e com os adjectivos mais grosseiros porque no fundo nenhum dos dois sentia o que dizia.
Era falar por falar.
Talvez tenha sido esse o nosso mal…
Sempre falámos muito, mas nunca dissemos nada.
Encarregámo-nos de esconder mutuamente até os sentimentos mais inocentes como se fossemos inimigos mortais..
Era permitido contar tudo a todos, fosse o que fosse, não importava. Mas quando se tratava de falar um com o outro… O silêncio era de ouro e deixávamos que as nossas mãos, os nossos olhos, os nossos gestos falassem por nós.
Era melhor assim.
Eu preferia assim.
Apesar da minha fama de boa comunicadora, nunca me entendi muito bem com as palavras, nem sequer as sabia utilizar na altura apropriada.
Aí fazia o que sempre fiz, deixava que o resto falasse por mim.
Por vezes dava-me bem.
Outras nem por isso…
Mas que se lixe! Não se pode ganhar sempre, n’est-ce pas vrai?

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

IX Capitulo

Apercebi-me um dia que já não seria capaz de viver sem ti.
Foi quando um dia faltaste às aulas por estares doente. Fiquei completamente à toa. Dezenas de pessoas e sentia-me mais sozinha que nunca. Como se estivesse presa numa minúscula ilha no meio do Pacifico onde não haviam nem animais, nem plantas, nada. Apenas o vazio…
Fiquei desesperada.
Quando me apercebi já era tarde demais.
Agora vivia em função da tua vida.
Descobri que te amava…
Descobri que já não estava apaixonada.
A paixão é um estado de loucura efémero. É rápido como um relâmpago e deixa marcas como um ferro em brasa. Parece durar para sempre até que um dia acaba. Acaba sempre, que ninguém se iluda. É como um ramo de rosas, são bonitas e perfumadas até ao dia em que murcham.
O amor é a essência pura da paixão. Refinada através dos mais elaborados processos. O verdadeiro amor não morre, é eterno. Quando se ama, não é preciso mais para se ser feliz.
Estupidamente feliz.
Foi assim que descobri que te amava.

Nunca compreendeste o meu amor.
Foi uma pena…
Não sei ao certo de quem foi a culpa, se é que alguém teve culpa nesta história, mas se calhar até foi minha.
Talvez não tenha sido capaz de demonstrar como era grande o meu amor por ti.
E olha que era bem grande.
Tão grande que transbordou para as minhas mãos e para os meus olhos, pois o meu coração não era suficientemente grande para o guardar.
Eu teria feito qualquer coisa por ti.
Ter-te-ia dado as estrelas e a lua se mas tivesses pedido. Ainda não sei bem como o faria, mas eu cá me arranjava.

“Às vezes gostava de ser uma anjo que apenas veio à Terra para de um certo modo marcar a sua presença na vida dos outros. E depois desaparecer. Olhar para todos os que fizeram parte da minha vida terrena, lá de cima, e ver de que modo a minha vida os influenciou… e aí ver quem alguma vez gostou um mínimo de mim…”
Escreves-te isto pouco depois de me matares e partiste-me o coração.
Tanto sofrimento…
O que eu não faria para apagar esse sofrimento da tua vida e devolver o sorriso de ouro ao teu rosto de anjo.
Fizeste que eu sentisse raiva de mim por nunca te ter dito o que eu realmente sentia por ti.
Nunca poderás sentir como me marcaste a vida pois eu não conheço as palavras para to dizer. Talvez, quando um dia gostares verdadeiramente de alguém, possas ouvir essas palavras sem que eu tenha de as pronunciar. Talvez aí me possas compreender.