Acho que estou feliz.
É bom.
É diferente.
Olho para a minha vida, que nem vida é, e fico feliz.
Estou morta.
Morri no auge da minha juventude.
Morri virgem.
Não conheci nenhum país.
Não conheci mais de metade dos prazeres da vida.
Estou feliz.
Finalmente estou feliz.
É mentira.
É tudo uma grande mentira, mas eu gosto de mentir. AS mentiras são boas. São suaves. São simpáticas. Não magoam. AS mentiras são como os penso rápidos, não curam a realidade, mas ao menos evitam que ela volte a sangrar.
A minha vida foi uma mentira.
A minha morte também.
Eu fui uma mentira.
E tu também
Construí a minha vida em cima de mentiras e quando tentei acabar com elas, desmoronei-me. Morri. Mataste-me.
Cabrão! Odeio-te!
“Até parece que eu acredito!”
Claro que acreditas. Sempre acreditaste.
“Não sabes mentir.”
Tu também não.
E não sabias mesmo. Sempre que me tentavas mentir eu acabava inevitavelmente por descobrir a tua mentira.
Tinhas jeito para mentir. Pena que só servisse para os outros. Éramos demasiado parecidos, lembras-te?, e os teus pensamentos não eram segredo para mim. Descobria quando estavas a mentir pois no teu lugar mentiria exactamente sobre a mesma coisa.
Estou feliz.
Estou frustrada mas estou feliz.
Tão triste…
Uma morta frustrada, mas feliz.
Estou morta. Estou feliz. Etc…
Talvez esteja feliz porque estou morta ou talvez esteja morta porque estou feliz. É tudo muito complicado. Não me peças para explicar, estou cansada. Acho que os vermes já começaram a consumir o pouco cérebro que alguma vez possui. Acho que o vomitaram. Não prestava.
Lembras-te da minha morte?
Eu lembro-me…
Estava feliz. Tu também.
“Não estava nada!”
Cala-te e deixa-me lembrar!
Foi uma morte injusta.
Não, foi estúpida
Não merecia morrer.
Dizem que os maus não morrem… Isso é mentira! Eu era má e morri. Não tanto como tu, claro! Eras insuperável! Mas conseguia ser má, especialmente quando estavas longe. Queria vingar-me da distância. Era má. Mas tu ainda eras pior.
Não acontece nada aqui em baixo.
Estou parada.
Não me quero mexer.
Deixo esse trabalho para os vermes, eles que se mexam se quiserem.
A vida é uma merda.
A morte também.
Eu gosto da vida.
“Eu não.”
Porque é que tens que estar sempre a contrariar-me?
“Porque me apetece!”
Eu sei que gostas da vida.
“Sabes lá tu!”
Cala-te e deixa-me!
“Isso querias tu!”
Os dias são cada vez mais sossegados. Não há pressas, não há para onde ir. Não há horários a cumprir, não há nada.
Apenas silêncio.
Silêncio.
É bom.
É sossegado.
É diferente.
Nunca tivemos um momento de silêncio ou sossego. Não conseguíamos. Era impossível. Havia sempre algo a dizer, um som, uma música. Era impossível estarmos calados. Quando se fala muito, cerca de 90% do que se diz é lixo verbal. Mas nunca connosco. Nada do que dizíamos era desprovido ou carenciado de significado. Cada palavra, cada som, cada gesto tiveram uma história. Foram especiais.
Tudo era especial.
Dentro da regra nós fomos a excepção.
Talvez porque quebrámos todas as regras.
E todas as excepções.
Não consigo pensar.
“Se conseguisses é que me espantavas!”
Porque é que és assim?
“Porque me apetece!”
Não vês que te amo? Que cada dia que passa mais o meu coração te pertence?
Quero sair daqui.
Deixar os vermes.
Este corpo que nunca me agradou.
Este mundo inferior e frio que por vezes combina demasiado comigo.
Quero voltar a dar os teus passos.
Correr pelas ruas vazias só pelo prazer de correr.
Sem pressas…
Chamar por ti só porque sei que não me poderás ouvir.
Devolve-me a vida.
Dá-me um sinal.
Algo…
Deixa-me voltar a viver.
Quero tempo.
Tempo para mim.
Tempo para ti.
Tempo para morrer.
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
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