III Capítulo
Tenho sentido a tua falta ultimamente.
Eu que pensava já te ter esquecido… Impossível!
És exactamente daquele tipo de pessoas que não se esquece, por mais que se tente.
Acho que ainda te amo…
Queria poder dizer que estava tudo acabado, que já não passavas de uma vaga memória da minha curta passagem pelo mundo dos vivos, mas não posso. Parece que vou passar o resto da eternidade contigo no pensamento.
Onde estarás neste momento? Será que estás bem? Feliz? Só? Em que estarás a pensar?
Daria qualquer coisa só para te ver uma última vez. Qualquer coisa…
A Primavera vai chegar em breve. Primavera… Lembras-te?... Um ano… Estranho como tanta coisa pode acontecer no espaço de um ano.
O calor chegou. Com ele vieram os vermes… Estou a apodrecer… Sinto-os devorarem-me …É horrível! Entram por todos os poros e consomem-me as entranhas! Sinto-os dentro de mim! Por favor fá-los sair! E este cheiro! Este cheiro pestilento! Acho que piorou bastante com a chegada do calor.
Porque é que eu tenho que passar por isto? Será que não bastava estar morta e ter consciência disso?! Também tenho que assistir à minha própria decomposição?!... Ainda falam do Inferno, do Purgatório… Não creio que exista coisa pior que vermo-nos apodrecer, desaparecer, sermos engolidos para o vazio do esquecimento… Tudo desaparece… Tudo.
Ainda não percebo muito da morte. Acho que mesmo estando morta também é preciso aprender. Dizem que, dependendo das condições do solo e do grau de humidade, o corpo humano demora em média sete anos a decompor-se completamente, mas acho que eu vou demorar menos tempo. Os vermes demoraram tempo a aparecer, mas pelos vistos trabalham bem.
Estou a desaparecer.
E tu não te importas…
Os vermes rastejam e dissecam-me… Eu já não aguento mais! Quando será que vou partir? Abandonar este corpo? Reencarnar?
Estou farta!!! Farta de viver neste minúsculo rectângulo, coberta pela ignorância. Não sei o que se passa aí ou em lado nenhum! Não sei nada de nada! Nada! Merda! O que é que se está a passar?! Não era suposto eu ir para o Céu ou para o Inferno? Será que nem lá me querem?! Será que sou assim tão má?!
Estou só… bem, sempre tenho os vermes, mas eles não são grande coisa como companhia…
E tu não te importas!!
Eu nunca te vou perdoar! Nem uma única visita… Será que não sentes remorsos pelo que me fizeste?
Eu tinha uma vida, merda! Era uma porcaria, mas mesmo assim sempre era uma vida! Bem melhor que estar aqui, a ser comida por estes seres repelentes!
Odeio-te!
Odeio-te como nunca odiei ninguém na vida!
Mas um dia eu vou sair deste buraco! Juro! E vou vingar-me! Vou vingar-me de ti e de todos aqueles que me ignoram.
Vou vingar-me!
Nunca te consegui entender. Dizias que eu tinha dupla personalidade, mas tu tinhas quádrupla ou quíntupla. Conseguias ser tão diferente que parecia que todos os dias conhecia uma pessoa diferente. Num dia eras um menino todo certinho, bem comportado, todo limpinho, simpático; no outro eras um cabrão safado. Um cabrão deliciosamente safado. Será que ainda continuas assim ou era apenas um jogo perverso para me dar a volta ao miolo? Seja como for devo dizer-te que foste extremamente eficaz.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
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