
“É verãaaaaoooo! E os peixes andam aos saltos!” Lembras-te? Cantavas essa música como se fosse algo natural. Devias ter alguma coisa contra o verão para o massacrares dessa maneira. Mas sabes, o meu amor por ti era tão cego que até do raio da música eu gostava.
Amor…
Porque é que mais cedo ou mais tarde acabamos inevitavelmente por falar nele? Pergunto-me se algum dia serás capaz de amar alguém, da mesma forma que eu gostava de ti. Tanto, que tudo à minha volta se tornava banal quando estava contigo.
O verão…
Os vermes continuam o seu trabalho.
Há quanto tempo?...
“Há quanto tempo o quê?”
Há quanto tempo me mataste?
Mau! Mau! Mau!
Não bastava teres-me tratado como uma leprosa?!
Eu podia ter tido uma vida, porra!
Eu podia ter sido feliz!
Talvez contigo, talvez não…
Estranho… Agora que estou morta sei que nunca vou saber.
Está quase a fazer um ano.
Um ano… Que terá acontecido neste ano?
Para mim pareceu-me uma eternidade.
E para ti?
Que se foda tudo!
A morte, a vida, …Tudo!!
A ignorância…
Triste esta ignorância própria de quem está morta.
Quem me dera saber o que se passa aí em cima e poder, sei lá… fazer alguma coisa. Qualquer coisa.
Estou só…
Ninguém vem falar comigo.
Nem mesmo o rapaz… Lembras-te? Nem esse.
Estou só…
Como podemos saber o que os outros sentem?
Acho que devia falar com alguém…
Será que têm linhas do género “SOS Solidão” para mortos?
Estou a precisar.
Preciso falar com alguém…
Contar todas as minhas merdas e devaneios. Procurar um pouco de ajuda e conforto nas palavras de um outro alguém. Sempre me queixei que ninguém me compreendia…
Só tu…
Só tu me conseguias compreender.
Porque éramos iguais.
Estou a pensar em ti…
Nada de especial, bem sei…
Penso na violência que rodeava a nossa relação.
Violência física.
Adorava bater-te!
Adorava morder-te!
Puxar-te os cabelos!
Não sei porque o fazia. Talvez para te lembrar que eu existia, que estava ali.
Sempre.
Lembro-me que um dia te mordi o pescoço. Foi uma mordida rápida, inocente, como a de um vampiro, mas ainda assim fez sangue.
“Violenta!!” reclamaste tu. “Odeio quando me mordem!”. Dizias isso como se te mordessem muitas vezes… Tentei redimir-me com um beijo, mas como todo o criminoso que se preze voltei ao lugar do crime. Comecei a sugar-te a ferida como uma possuída.
Foste a única pessoa a quem provei o sangue.
O único.
No dia seguinte contaste-me que tinhas passado a noite com uma camisola de gola alta, morrendo de calor, para não se ver a mancha roxa que eu tinha deixado.
Adorava maltratar-te!
Eu sei que sempre me afirmei pacifista, mas contigo era diferente.
Adorava bater-te!
Especialmente depois dum beijo…
Apanhava-te desprevenido e ficavas sem reacção.
Às vezes ripostavas.
Batias-me…
Mas eu gostava.
Talvez te batesse porque no fundo adorava que me batesses também.
Eu sei… Eu sei…
Eu era uma masoquista…
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