
Capítulo VI
Grito pelo teu nome.
Sei que não me podes ouvir.
Por vezes penso que já te esqueci…
È provável que sim…
Mentira.
Basta-me lembrar dos teus olhos de caleidoscópio para que o amor me cegue novamente.
Sempre quis escrever um livro.
Comecei muitos…
Não acabei nenhum.
Não gostava do que escrevia.
Gostaria de poder escrever um livro sobre os teus olhos. Para que eles passassem para a posteridade. Imortalizá-los num Bestseller a nível mundial. Daqueles que toda a gente compra, mas ninguém lê.
Falta de tempo…
Falta de paciência…
Bonito para preencher a prateleira.
Ainda bem…
Teria o consolo de ser a última a vê-los. “Vê-los”, pois ninguém os viu realmente. Muita gente os elogiou, reconheceu a sua beleza, mas ninguém mergulhou neles, ninguém conseguiu misturar-se com o infinito do seu brilho nem com as suas cores indefinidas.
Só eu…
Acho que a forma como vemos os olhos de alguém tem muito a ver com os sentimentos que dedicamos a essa pessoa. Quanto mais profundos forem os sentimentos, maior é o mergulho.
A vida tem destas coisas.
E os teus olhos também.
Onde estás?
Que fizeste dessa vida que um dia partilhaste comigo.
Lembras-te de como éramos inseparáveis?
Até respirar perdia o sentido quando estávamos longe um do outro, e agora…
Bizarro como tudo passa e muda. Como tudo se altera.
O Tempo é como a esponja do quadro de uma sala de aulas. A sua função é apagar tudo o que escrevemos na nossa vida. Devolver tudo ao esquecimento, que afinal é o melhor lugar para certo tipo de coisas. Como eu… Num momento preenchi o quadro da tua vida, no outro fui cruelmente apagada, devolvida ao esquecimento como um maldito exercício de matemática.
O verão está a chegar ao fim.
O tempo aqui passa de maneira peculiar. Os dias parecem anos e os meses parecem centésimos de segundo.
Tudo se confunde e mistura nas rendas do meu caixão.
Até quando?
Até quando ficarei aqui, sofrendo a tortura de me ver desaparecer.
1 de Outubro…
Lembras-te?
Teria sido um dia como outro qualquer se eu não te adorasse e tu não me tivesses matado.
Perdi a pressa…
Perdi a inspiração para continuar a escrever coisas bonitas.
Sempre que penso nesse dia fico desesperada e as lágrimas, que já nem existem, reúnem-se em protesto na minha garganta e sufocam-me.
Deixo de respirar.
Deixo de pensar.
Acabaste comigo nesse dia.
Não foi só a mim que atiraste do cimo daquela torre, foi tudo o que de mais bonito existiu neste mundo.
O meu amor…O meu eterno amor.
Eterno como o tempo da minha queda.
Eterno como o som dos meus ossos a esmagarem-se contra a dureza do chão.
A minha adoração por ti foi um pouco como a minha morte. Começou como um acidente e acabou em desgraça.
Será que tiveste coragem de admitir que foste tu quem me matou, ou deixaste que me ridicularizassem como “mais uma vitima de acidente” ou como “um trambolho com excesso de peso e falta de competência para descer umas simples escadas”?
Que importa isso agora?
Sempre pensei que os mortos não sentiam nada… Mas que sabemos nós das coisas até as experimentarmos.
Até hoje nunca tinha relembrado aquela noite com tanta clareza… Foi tudo tão estúpido que mais parecia um quadro psicadélico-dramático.
Podia descrever todos os passos que demos, todas as palavras que me disseste, mas para quê fazê-lo?
Estávamos na nossa torre.
Ao descer os degraus, rebolei as escadas e sem saber como saltei o pequeno muro que as rodeavam.
Nesse momento deixei de acreditar em Deus.
Pensei que ia morrer.
Apesar de nunca ter dado muito valor à vida, naquele momento agarrei-me a ela com quantas forças tinha. Gritei por ti, mas não apareceste. Gritei novamente e por fim apareceste. Mas o teu rosto não era o mesmo. Meteste-me medo. O teu rosto parecia o de um fantasma ou demónio, e estavas insuportavelmente calmo, como se tivesses tomado uma overdose de Valium’s . Olhavas-me com uma frieza que me gelou o sangue. Debruçaste-te sobre o muro e disseste que te agarrasse a mão, que me irias salvar.
Confiei em ti. Agarrei-a.
Fiquei então suspensa apenas pela mão que segurava a tua. Esperei que me içasses para cima, mas não o fizeste. Pedi-te para o fazeres, mas ficaste impávido e sereno. Olhando-me da mesma forma distante.
Comecei a ficar desesperada.
Não conseguia entender por que me estavas a fazer aquilo.
Lançaste-me um último sorriso sádico e por fim disseste:
“Adeus”
Largaste a minha mão e foi como se o meu corpo pairasse na descida. Devagar… Devagar…Como se tudo tivesse parado e o teu sorriso ficasse eternamente sádico. Como se eu tivesse todo o tempo do mundo antes de atingir o chão.
Ainda hoje não entendo como o conseguiste fazer…
Um dia escreveste-me um poema como resposta a um outro que eu te tinha escrito antes, e que era deste género:
“Não sei o que fazer
Se me largo a rir
Ou se me afogo em lágrimas
Não tenho nada a perder
A não ser o teu amor.
Mas se isto acontecer
Vou tentar esquecer
Mas não me vou esconder.
A verdade foi feita para ser dita
E o que mais me irrita
É que a verdade seja dita.
Quero viver neste mundo de fantasia
Até que o fogo comece a gelar
A água a arder
E o Diabo a rezar.
Só aí poderei deixar de te amar
E tu deixarás de me merecer…”
Foi a coisa mais bonita que alguma vez me escreveram…
E no fim, junto com a tua assinatura, escreveste: “Até que a morte nos separe”.
Tinhas razão…
Foi a morte que nos separou.
Foi por isso que me mataste? Para poderes ver-te livre de mim?
Ainda bem que o fizeste.
Se me tivesses abandonado de outra forma eu mesma o teria feito, e agora, mais do que nunca, acho que o suicídio é ainda menos digno.
Agora que penso no que aconteceu, deixei de te odiar e agradeço-te eternamente…
Obrigado…
Sem comentários:
Enviar um comentário