quarta-feira, 3 de outubro de 2007

VII Capítulo




As verdadeiras estrelas apenas brilham na escuridão.
Este foi um dos pensamentos que eu inventei para me animar quando a vida me corria mal.
Basicamente o que esta frase quer dizer é que todos os que atravessam o deserto do sofrimento no presente, terão um oásis de felicidade no futuro.
Este pensamento sempre me alegrou.
Mais uma mentira…
Eu nunca alcancei nenhum oásis de felicidade.
Talvez porque eu própria não me possa considerar uma estrela, nem tão pouco tive a sorte de atravessar o deserto do sofrimento.
O único deserto que atravessei foi o do vazio.
O vácuo…
O silêncio interminável…
Anos de normalidade aborrecida.

Pouco soubeste da minha vida.
Eu ainda menos soube da tua.
A verdade é que poucas vezes me dei ao trabalho de responder com a verdade às muitas vezes que me fazias.
Verdade para quê?
Já me basta ter verdade no nome…
Deixo a mentira para a vida.
Tu parvalhão…
Tu longe…
Eu podre de triste…
Eu cansada…
Eu só…
Os teus olhos…
Deus do Céu!... Quem não se afogaria de boa vontade nesses olhos de água suja?
Para mim, há muito que tu tinhas deixado de ser um simples ser humano, e tinha agora asas onde todos os outros têm ombros.
Tinha uma verdadeira adoração por ti.
Pior que os fanáticos islâmicos…
Não sei porque te adorava assim.
És o meu Anjo…
O meu Anjo de Olhos Tristes…
O meu amor por ti há muito que tinha deixado de ser físico.
A verdade é que se tinha tornado puro e inocente, como o amor de dois irmãos que cometeram incesto.
Tanto poderia ficar o resto da vida a olhar para ti em silêncio, admirando-te nas trevas, como poderia descer ao nível da mais reles das meretrizes e possuir-te até o Diabo nos levar a alma.
Sempre tive este pequeno problema de expressão que nunca me permitiu pôr em palavras o que eu realmente sentia.
Tentei muitas vezes…
Nunca consegui.
Mas para quê palavras se Deus nos deu os olhos, as mãos, a boca…
Para quê palavras quando o silêncio é muito mais interessante.
Adorei-te no puro sentido da palavra.
Ainda hoje me pergunto como pudeste não perceber?
Sempre disseste que eu disfarçava bem os meus sentimentos… Talvez tenha sido por isso que não percebeste.
Aliás, é fácil entender… Como é possível compreender um sentimento que nunca experimentámos?
Preferiste chamar-lhe possessivísmo…
Não me importo.
Eu sei que estou morta e que é tarde para me justificar…
Nunca foi possessivismo, ou qualquer outro sentimento doentio. Eram o teu desprezo e frieza que me faziam ficar insegura, disparando contra tudo e todos à minha volta, mesmo antes de ver o alvo.
Era a esperança de ver uma réstia do passado no teu sorriso ou no teu olhar.
Raras vezes a encontrei.
Pura antipatia, claro.
Preferiste chamar-lhe possessivismo…
Podes chamar-lhe o que quiseres.
Por mais que eu tente e por mais que eu me explique, tu nunca conseguirás entender.
É muito fácil criticar quem está do outro lado da história.
A crítica é a reacção natural dos ignorantes.
Se soubesses metade do que eu passei…
Se soubesses o que eu estou a passar…

Tenho saudades do rapaz…Lembras-te dele?
Ele nunca mais apareceu… Tu também não, mas isso era de esperar. Agora ele… Quem me dera que ele regressasse, que me salvasse deste suplicio com as suas palavras calmas e generosas.
Chocado?!
Já devias saber que não és a única pessoa a encher-me os pensamentos, nem tão pouco foste o primeiro a tirar-me horas de sono.
Houve um antes de ti.
Eu falei-te dele…
E como falei!!!...
Talvez porque fizemos uma grande maldade ao pobrezinho.
E foste tu o culpado!
Se não fossem esses teus olhos…
A traição é um Karma que se carrega para o resto da vida.
Eu estou a pagar bem caro por todo o mal que lhe fiz.
Eu fiz sofrer o outro rapaz da mesma forma que tu me fizeste sofrer a mim.
Eu fui injusta, eu fui cobarde…
Mas estava tão inebriada… contigo.
Foi mais uma das lições que a vida me ensinou… Quando fazemos mal a alguém podemos ter a certeza que vamos pagar bem caro por isso.
Mais cedo ou mais tarde todos nós saldamos as nossas dívidas de uma forma ou de outra.
Foi por isso que eu nunca me dei ao trabalho de me vingar de quem quer que fosse. Não vale a pena. Escusamos de sujar as nossas mãos com seres inferiores, e podemos ainda assim, assistir confortavelmente da primeira fila, à sua queda.
Não é justiça divina.
É justiça da vida, e nesta eu dou-me ao luxo de acreditar.
Poor Little John… Sim, era esse o seu nome. Espero que ainda te lembres, afinal foste tu que lho deste. Se arrependimento matasse…
Não tinha o direito de fazer o que fiz…
Eu fui injusta com ele…
E agora estou a pagar bem caro…
Tu… Tu foste o meu Karma!

Eu sei que não fui feita para ti.
Foi neste ponto que a vida errou… Tu foste feito para mim.
Estranho como a vida nos juntou.
Foi um erro… Mais um erro que a vida cometeu. E como sempre, desse erro resultou o sofrimento. O meu…

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