Eu sou má.
Agora estou em todo o lado.
Sou eu… Não me reconheces?
Estou no copo de café com gelo, na rodela de limão do teu Ginger Ale, nos fios de queijo da tua tosta mista, na tua aspirina com Coca-Cola, no teu Safari com Whisky, na tela dos teus quadros, no picotado do teu papel higiénico, nos teus CD’s, no teu chá de menta, nas páginas dos teus cadernos que negligentemente arrancas…
Sou eu.
Não me reconheces?
O rapaz libertou-me do suplício onde me havias prendido. O meu corpo pertence-lhe, mas a minha alma,… a minha alma nunca será sua.
Não sei ao certo como explicar esta estranha passagem da minha vida, mas digamos apenas que o rapaz adora absinto, e a música Rave subiu-lhe à cabeça..
Foi ter comigo.
Escavou os sete palmos de escuridão que me cobriam e abriu o caixão onde um dia me encerraste.
Foi nesse momento,… nesse preciso momento, que eu me tornei no que sou hoje. Uma pobre alma incorpórea que está em todo o lado.
Ele ficou com o meu corpo meio apodrecido, mas a minha alma escapou-se para além do invisível.
É estranho voltar a caminhar no mundo dos vivos. Tive que voltar a aprender muita coisa.
Agora posso fazer o que apetece. Tenho o poder de ser tudo aquilo que um dia desejei ser.
Poderia vingar-me de ti.
Poderia matar-te.
Fazer-te sofrer como me fizeste sofrer a mim.
Deixavas de existir.
E eu ficaria feliz…
Não… Não ficava.
Como queres que eu fique feliz ao ver-te sofrer?
Para mim é impossível.
Ainda gosto demasiado de ti.
O mal disto tudo sou eu!
Eu odeio-me!
E tudo por causa de quem?
De ti!
Eu adoro-te…
Mas devia odiar-te!
Vês?! É aqui que eu falho! É em ti que reside a grande falha da minha miserável existência!
Eu daria a minha alma ao Diabo só para te poder esquecer.
Raios te partam!!
Que legiões de demónios te levem para o teu – e meu – eterno descanso!
A culpa não é tua…
É realmente uma pena…
Mas porquê?
Porque é que me mataste?
Estavas assim tão farto de mim que não suportasses a possibilidade de continuar a partilhar este planeta comigo?
Não podias simplesmente ter-me comprado uns patins?
Tinha-te saído mais barato.
E a mim também…
Sabes o que é o Inferno?
Eu sei…
É a impossibilidade de te tocar estando a dois centímetros de ti, é a impossibilidade de voltar a ouvir todas as palavras que um dia me disseste, é a impossibilidade de me voltar a envolver no sentimento que um dia me dedicaste.
Acabou-se…
E o que eu vejo? Alguém que age como se eu não existisse, como se eu não estivesse sempre ao seu lado, porque não me consegue ver.
Ignoras-me.
Queres saber o que é o Inferno? Pois aqui o tens.
Tu foste o Anjo Negro encarregue de recrutar a minha alma neste mundo sombrio.
Foi essa a tua missão.
Não faz mal…
O mal de tudo foram as palavras… Com palavras me salvaste, e com palavras me mataste. Podia ter sido de qualquer outra forma, é bom que se note, mas escolheste as palavras.
Nunca usaste violência física. Não precisavas. Conhecias as palavras que desfaziam… que feriam como uma faca mal afiada.
Usaste-as tantas vezes…
Deus do céu! Como as usaste!
Mataste-me naquele dia e mataste-me antes e mataste-me depois com palavras e gestos e silêncio.
Continuas a matar-me.
A minha vida… quer dizer, esta miserável forma de existência, se é que assim lhe podemos chamar, é demasiado monótona.
Choco com as pessoas na rua, mas nem preciso pedir desculpa pois elas não me conseguem ver, nem tão pouco sentir.
Devo confessar que faço algumas maldades… E a minha curiosidade leva-me a fazer coisas que dariam para ser excomungada, mas tu conheces-me… certas coisas são mais forte que eu.
Tantos velhinhos tropeçaram “acidentalmente”.
Tantos meninos ficaram sem boxers.
Tantas vezes passei as minhas mãos pelas tuas costas no duche…
Eu sei…eu sei… Eu sou tão mazinha!
A tua vida também não se pode considerar a festa do ano. Continuas na mesma escola, com os mesmos amigos, com os mesmos hábitos… Não mudaste nada, ainda assim cresceste.
Continuas sozinho… Centenas de pessoas à tua volta e continuas sozinho.
Sinto-me mesquinhamente por não teres encontrado ninguém que me substituísse na minha função preferida: adorar-te.
Ainda bem…
Sabes bem como sou. Se houvesse mais alguém na história eu retirava-me. Seria muita gente ao mesmo, e se há coisa que eu detesto é falta de originalidade.
A minha invisibilidade permitiu-me descobrir muita coisa a teu respeito.
Descobri que por trás dessa máscara de gelo, se esconde afinal o mais sensível dos seres.
E fico feliz…
Fico feliz pois sou a única a sabê-lo.
Fico feliz pois tenho mais um milhão de motivos para te adorar.
Fico feliz por poder partilhar este pequeno segredo contigo.
Não te preocupes…
Guardá-lo-ei com a minha vida.
domingo, 21 de outubro de 2007
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