domingo, 2 de dezembro de 2007

X Capítulo

Eu sei que ando a pôr-te louco.
É bem feito!
Para aprenderes!
Para não seres mau!
Invado os teus sonhos.
Levo-te numa volta alucinante de montanha russa pelos recantos mais lascivos da tua imaginação…
Não te deixo dormir.
Violo a tua memória com imagens, palavras, recordações.
Sabes qual é a minha preferida?
Aquela em que me vês sobre um enorme piano de cauda no meio de um luxuoso salão de baile com chão de mármore.
É apenas um flash, e no entanto deixa-te um efeito durante horas…
Reconheces?
Devias lembrar-te… Afinal foste tu quem me deu a ideia.
Espero que gostes.
Espero que sintas saudades da tua paz.
Espero que percebas agora o que é deitar a cabeça na almofada e aperceberes-te que nem acordado nem a dormir consegues fugir ao pesadelo.
Sentires vontade de arrancar cada fio de cabelo para que a dor física substitua a dor da alma, pois é tão mais fácil de suportar.
É horrível, não é?
Sabes agora o que é não ter paz?
É muito fácil esquecer os mortos pois como se costuma dizer, longe dos olhos, longe do coração.
Eu não quero que me esqueças!!!!
Não permitirei que tal aconteça.

A mentira dilui-se tão bem na verdade!
É como o leite quente e o açúcar…
A verdade é o leite. Branquito, desenxabido, aquela coisa apagada do costume.
A mentira é o açúcar. Basta uma colherzinha, e a verdade… mnhami! Ganha logo outro sabor!
Já deves saber que cada palavra que eu acabei de escrever é a mais pura mentira. Um éfemero rasgo de estéril imaginação.
A minha personalidade é demasiado passiva para engendrar algo t~qo trabalhoso como uma vingança.
Tenho lá eu tempo para isso!!
Tenho mais que fazer!
Mas ficou bem, não achas?

Adoro perseguir-te pela rua à noite…
Tornas-te numa criatura particularmente estranha quando caminhas pela rua sozinho.
Quem poderá resistir a esse charme?
Sigo-te pela rua sem transito…
Lembras-te?
Nela vivemos momentos verdadeiramente mágicos.
Tantas vezes que nela dançamos… Eu, segurando uma rosa selvagem na boca… os nossos rostos colados… deslizando suavemente pela calçada…
Não precisávamos de musica, não precisávamos de nada…
Dava meia volta e inclinava-me apoiada no teu braço, e quando tudo terminava, inclinavas-te languidamente e beijavas-me suavemente nos lábios.
Tudo aquilo levava-me numa viagem no tempo… Como se fossemos dois amantes dançando tango num bairro boémio de Paris, nos anos 50.
Momentos como este ninguém terá…
São pensamentos egoístas como este que me consolam em noites de frustração.
Em noites que deslizas pela mesma rua,… sozinho.
Em noites que não o poderemos voltar a fazer pois… eu estou morta, e os mortos dançam sozinhos.

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