domingo, 23 de dezembro de 2007

XI Capitulo

Nada acontece.
Nunca…
Não há sol que te queime nem chuva que dissolva a máscara da máscara que um dia criaste.
Tal como o resto da humanidade, também tu nasceste da falta de imaginação de dois amantes numa noite de insónia.
De que nos serve estarmos vivos se não para dissertarmos todas as nossas angustias?
Que nos importa saber que a vida se fenece?
De que nos serve saber que estamos vivos?
Anormalmente vivos…
O Tempo não é mais que um vazio morto entre duas coisas que acontecem.
O Tempo…
É com obsessão que o tento agarrar.
E o Tempo escapasse sempre por entre os meus dedos como grãos de areia.
O Tempo…
Antigamente aborrecia-me. Via-o como um inimigo irritante que passava por mim quando menos o queria ver.
Agora vejo-o como um amigo de longa data que eu procuro desesperadamente, mas do qual desconheço o número de telefone ou a morada.
Nada acontece…
Nunca.
O Tempo senta-se à minha frente e olha-me com olhos tristes, como se fosse um cão a pedir-me para ir à rua.
E eu sinto que tenho tempo para tudo, menos para levar o Tempo a passear
Sinto-me triste…
O Tempo nunca foi meu…



Agora estou a viver em todos os oceanos…
Finalmente descobri o que é que o rapaz fez com a minha velha carcaça.
Sem saber ele realizou o meu último desejo.
É tão estranho estar a passar por isto, e mais estranho ainda é poder contá-lo, mas…
Vi-me morta.
É uma sensação peculiar, acredita. Muito difícil de colocar em palavras pois ninguém vivo a poderá sentir.
Olhar a minha carne seca e acinzentada que já mal conseguia cobrir os ossos e os tendões, o meu cabelo estava sujo e desgrenhado, e os meus olhos… já não estavam , nas órbitas, que eram dois buracos escuros. Ali estava eu, apenas uma casca vazia, como o exoesqueleto de um insecto morto.
O que sentir num momento destes?
Foi o rapaz que trouxe o meu corpo até esta praia.
E nesta mesma praia ele fez a minha cremação.
Tive direito a um funeral celta improvisado com um equipamento desportivo dos tempos modernos. Graciosamente ele substituiu a jangada de troncos de carvalho por uma prancha de surf, e empurrou-me para longe da costa, enviando-me para o meu descanso como os antigos reis e guerreiros.
O que sobrou foram apenas as minhas cinzas que se misturaram com a espuma do mar.
Estou feliz…
Fiquei feliz com o meu fim.
Estúpido, bem sei, mas é como se a minha vida fosse uma peça de teatro à qual fui assistir, e a última cena é exactamente esta: o meu corpo a arder no meio do mar.
E quando finalmente cai o pana, eu levanto-me, aplaudo calorosamente e regresso a casa com a agradável sensação no coração de que o final da peça foi perfeito.
Quanto ao rapaz… Não sei.
A tristeza ainda habita os seus lindos olhos negros, e o vazio não se consumiu com o fogo.
Ainda assim uma parte de mim ficou com aquele rapaz.
Uma parte de mim que eu nunca esquecerei…

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