quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Continuação do X capítulo

Quando a lua brilha no céu e as estrelas se reúnem em alegres constelações, costumo dançar sobre o teu telhado.
Cuido do teu sono de anjo e faço para que nenhum mel te aconteça.
Por vezes sou eu que sonho…
Imagino-te perseguindo borboletas numa floresta escura. O céu é completamente negro, mas as plantas, as flores, as borboletas emitem luz própria.
E enquanto danças com as borboletas, as criaturas da floresta vêm dançar contigo.
Soa-te familiar?
Não tem importância…
Para quê imaginação quando se tem o coração cheio de boas intenções.
Para quê imaginação, se é assim mesmo que eu te vejo: perseguindo borboletas numa noite como esta.
É dançando sobre o teu telhado que sacudo da ponta dos meus dedos as minhas lembranças de ti.
O odor a espuma do mar que tinha o teu cabelo…
As tuas mãos macias como veludo…
O brilho dos teus olhos…
O calor das tuas costas…
AS pequenas imperfeições da pele do teu pescoço…
O sabor agre e doce da tua saliva…
E quando me canso, sento-me sobre o teu telhado e bebo cada recordação como se fossem garrafinhas de licor… uma atrás da outra… até que fico tão embriagada que mal me consigo mexer.
É então que fecho os olhos e adormeço embalada pelo suave sussurro do vento, que passa pelo meu rosto como um suspiro…
É apenas paz…
É em noites como esta, em que a luz da lua é ideal e persegues borboletas no céu, que eu vou ter contigo.
É em noites como esta que eu ressuscito e volto a ser a borboleta que um dia pregaste na parede com alfinetes e lágrimas.
É em noites como esta que eu tenho a maravilhosa sensação de que o mundo é perfeito.

A chuva…
Já alguma vez reparaste na doce melodia que a chuva produz ao cair na estrada, nos passeios, nos telhados?
É lindo…
Hoje voltei a sentar-me no teu telhado e um denso cobertor de chuva veio aquecer-me.
É tudo tão lindo…
A chuva faz-me lembras as lágrimas que um dia choraste.
Lágrimas que eu nunca vi, mas que sei que derramaste.
Como a memória de uma porta já batida, o silêncio vem ter comigo. A chuva desaparece.
Aí apercebo-me de que a chuva de lágrimas era minha, mas que tu nunca serás.

Os meus pensamentos são interrompidos pelo som do teu telefone.
Corres para o atender.
Sou eu…
Como sempre sou eu…
Passamos duas horas ao telefone falando de banalidades interessantes.
A futilidade de um murmúrio intimo que circula à velocidade do som por entre os fios.
Como um deus solitário que corre por entre os claustros de uma velha catedral e que por fim descansa no altar da tua orelha.
Vivemos em eterno défice de palavras como se utilizando todas não conseguíssemos esgotar nenhuma.
Passa o tempo…
Desligas.
Eu também.
Regresso ao teu telhado tremendo de frio e ansiedade, esperando pela doce melodia da chuva que cai dos meus olhos.

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