Imagina como seris estar viva de novo…
É um bocado difícil…
É como imaginar alguém feio que de repente se torna bonito. É como imaginar que o Sol ilumina a noite e a Lua aquece o dia. É como imaginar que Deus afinal é um cabrão safado que se diverte a lixar a vida dos outros e o Diabo, coitadinho, afinal é o bom da fita.
Imagino todas as coisas que eu poderia estar a fazer se ainda pertencesse ao mundo dos vivos…
Lembras-te do meu riso que ecoava por todos os cantos num raio de 5 km… ou o meu ar de superioridade perante todas as forças destrutivas deste mundo… ou o meu sorriso cínico que eu generosamente distribuía por todos aqueles que eu detestava…
Lembras-te?
Imagina-me a fazer tudo isto de novo.
Sinceramente, sob este ponto de vista, acho que o mundo não perdeu nada com o meu desaparecimento.
É realmente frustrante…
Eu não fiz nada durante a minha efémera passagem por este mundo.
Em dezasseis anos de miserável existência eu não consegui fazer nada de bom, nada que marcou o mundo… Não marquei presença na vida de ninguém.
Como eu gostaria de saber se sentes a minha falta….Se te arrependeste daquilo que me fizeste… Se tens saudades do tempo em que fomos felizes…
Eu poderia saber tudo isto. Como morta tenho esse poder. Mas tenho medo… Talvez porque algo dentro de mim já conheça a resposta e eu tenha medo de a ouvir de novo.
Seria demasiado cruel para mim saber que fui apenas mais uma pessoa que cruzou o teu caminho e que ficou para trás.
Tenho medo de descobrir que afinal não fui ninguém e que nem faz sentido chamar-me “morta” pois requer existir primeiro vida para depois existir a morte.
Tenho medo de descobrir que afinal nem sequer existi…
Foi tudo um sonho…
Foi tudo um sonho…
E eu acordo de manhã na minha cama e sou alguém completamente diferente… Tu nunca exististe na minha vida…
Apenas um sonho…
“Faz um filho, escreve um livro e planta uma árvore.”
Era este o conselho que davam a quem queria deixar uma marca neste mundo.
“Faz um filho….” Não tive tempo para isso. Além do mais acho que seria uma péssima mãe, e a última coisa que eu queria era contribuir para a infelicidade de mais um ser neste planeta.
“Escreve um livro…” Neste ponto eu tentei, juro que tentei, mas eu não nasci dotada de talento e todos aqueles que eu comecei ficaram por acabar pois eram demasiado maus para terem um fim digno.
“Planta uma árvore.” Este ponto concretizei pouco tempo antes de morrer mas não me realizou em nada. Quem se lembra que um dia eu contribui para que haja mais uma ínfima percentagem de oxigénio no planeta? A memória das árvores é muito breve e dura o mesmo que uma moto-serra demora a cortá-las.
A minha vida foi um vazio…
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
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