Sabes o que faço quando me sinto só?
Fecho os olhos…
Não sinto nada além da cálida escuridão. Embrulho-me no odor a caramelo do ponche quente e fico assim durante horas.
Por vezes vêm-me à memória a delicadeza com que seguravas no copo entre as tuas mãos e a doçura com que fechavas os olhos e inspiravas o vapor que se desprendia do ponche, e não consigo deixar de esboçar um sorriso de felicidade.
Apetecia-me fotografar-te…
Captar aquela imagem única… para que ela durasse para sempre…
É uma pena que as fotografias não roubem mesmo a alma, como pensavam os índios. É pena que tudo não passe de uma superstição.
O que eu não daria para possuir os segredos de uma alma como a tua…
O que eu não daria para possuir a perfeição de uma alma como a tua….
Tu eras perfeito…
Tudo em ti era tão especial…
Simples gestos que tu fazias… a forma como seguravas num copo, o teu andar, a forma como colocavas as mãos debaixo do queixo com os cotovelos apoiados na mesa quando prestavas atenção a alguma coisa, a tua mania de cruzares as pernas quando estavas cansado de estar em pé, a forma como fechavas o punho e coçavas o nariz com as articulações dos dedos, a forma como as tuas pupilas dilatavam quando ouvias algo que te deixava feliz…
Passava horas a observar-te, como uma etóloga que realiza um estudo exaustivo sobre o comportamento de um animal raro.
Por vezes quando te observava era assaltada por pensamentos fúteis e egoístas. Desejava que alguém fizesse o mesmo comigo. Que alguém me observasse com a mesma admiração…
Alguém que fosses tu.
Eu teria sido a pessoa mais feliz do mundo se um dia me tivesses dito que eu era perfeita tal como eu era.
“Não ficarias feliz pois não acreditarias.”
É… És capaz de ter razão…
Estou triste.
Não me perguntes porquê.
É como se carregasse toda a tristeza deste mundo nas costas e não tivesse um motivo para tal.
Estou só…
Mais uma vez uma chuva de lágrimas começa nos meus olhos e cai suavemente sobre o teu telhado.
Sabes o que é estar-se só?
Não é estar momentaneamente sozinho em casa ou na rua. Quando estás sozinho tens como companhia a certeza de que alguém pode chegar a qualquer momento…. Chamar pelo teu nome… Sorrir-te… Oferecer-te palavras quentes que te dizem que não estás só neste mundo.
Estar-se só é estar-se completamente sozinho.
É estar no meio de milhões de pessoas e ser-se indiferente a todas elas… é ninguém te sorrir…
A solidão é a morte da alma.
Ele diz-me que não poderei ter paz enquanto não acertar contas com o passado. Enquanto eu não escrever a minha última página. Aquela que começava com o teu nome e acabava com reticências. Aquela onde eu deveria escrever com a consciência tranquila e o coração despreocupado a palavra “Fim”.
“Esquece o que passou”, diz-me ele.
Mas como posso eu esquecer toda a minha vida? Como posso eu esquecer a felicidade?
Diz-me…
Diz-me o que me aconteceu.
Mas o meu Eu continua o mesmo. Algures no escuro… bem perto de mim… ele fala baixinho, por isso tenho que o ouvir com muita atenção.
Eu continuo a mesma.
A mesma que traiu todas as suas convicções e atirou a própria alma ao fogo só por te adorar mais que a própria vida, a mesma com quem dançavas pela rua, a mesma que teria dado a vida por ti…sem pensar duas vezes.
A mesma que não conseguiste entender e por isso mataste.
domingo, 13 de janeiro de 2008
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