
Continuo a girar à tua volta como uma pobre borboleta tonta, ofuscada pela tua luz. Eu sei que mais cedo ou mais tarde ela acabará por me aniquilar, mas ainda assim não me consigo afastar.
Triste… Uma pobre borboleta insignificante… Uma borboleta que percorre os confins da noite à procura da tua luz, para me aquecer, para me embriagar.
Torna-me vulnerável, como um aviso aos sádicos que eventualmente acabarão por me esborrachar contra a parede, mas ainda assim não faz mal. Aceito esse risco como uma justificação e desculpa para a minha felicidade.
Felicidade…
Estranha forma de felicidade…
O Passado vem ter comigo e atira-me à cara que será sempre melhor que o presente. Infelizmente sou forçada a concordar com ele.
O passado é sempre melhor que o presente por muito mau que ele tenha sido.
O verbo sofrer conjugado no pretérito perfeito é sempre mais suave que conjugado no presente.
Acho que devia arranjar melhor ocupação para o meu tempo que andar sempre à tua volta, mas peço desculpa, não encontro coisa melhor para fazer.
A verdade é que nunca me dei bem com a “vida”, especialmente com a minha.
Um dia, alguém extremamente sensato aconselhou-me: “Arranja uma vida!”. Na altura encolhi os ombros e barafustei algo incoerente, mas a verdade é que eu até arranjava uma “vida”, se alguma me quisesse.
Basicamente a vida é como o tango, quando um não quer, dois não dançam.
Acho que a vida nunca gostou muito de mim. Um sentimento recíproco, devo confessar.
Passo os dias escondida atrás de um espelho…
Através dele posso ver tudo o que acontece, tudo aquilo que me magoa… No entanto ninguém me pode ver. Tu não me podes ver.
Mesmo se te aproximares para veres o que há do outro lado, a única coisa que verás será a tua imagem reflectida. Uns dias feliz, outros mais pálida e esbatida, outros plena de raiva e amargura.
É sempre o teu reflexo que vês. Nunca eu.
Talvez porque no fundo eu me resuma a isso mesmo: um espelho.
Algo morto e sem personalidade que quando colocado num determinado ângulo reflecte o estado de espírito dos outros. Apenas dos outros…
Eu não sou nada…
Eu não sou ninguém…
Apenas um Espelho…
Voltei a sonhar…
Sonhei que voltava a dar os teus passos e era feliz novamente.
Apenas aquela sensação de paz….
Não me lembro muito bem do sonho. A única sensação que retive foi o prazer de te voltar a tocar novamente. Como quando dançava contigo…
Ou quando me deitava contigo na relva orvalhada…
Senti-me tão feliz…
Estupidamente feliz
Acordei ao som da tua música preferida.
Voltei a ver-te do outro lado do Espelho onde nunca me poderás ver.
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