quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Fim do IX Capítulo




Eu sei que passo o meu tempo a contradizer-me, mas por vezes sinto saudades do meu caixão. A sério!
Antes estava sempre a queixar-me do cheiro, de como os vermes me incomodavam… Mas lá ao menos não tinha muito trabalho, não tinha nada para fazer, nada para ver… Via-me simplesmente apodrecer.
Agora sinto que não tenho tempo para nada.
Estou farta do mundo dos vivos!
Tudo tão complicado!
Um mundo de merda, podes crer!
Qualquer dia vou passar umas férias na minha sepultura. Descansar o meu esqueleto uns quinze dias e fico como nova!
Ah! Mas é verdade! O rapaz roubou o meu corpo.
Ainda me pergunto para que raio ele queria aquela velha carcaça.
Talvez o use para fazer magia negra…
Talvez o embalsame e quando tiver para aí virado, fode-me até me saltar palha pelos olhos.
Ou talvez me adore…Será que é amor?
Tão lindo não é?... Eu sei… Eu sei…
Qualquer dia ainda vou ver o que fez com o meu velho esqueleto.

Era em momentos como este que eu gostaria de poder escrever algo acerca dos teus olhos ou da pele macia das tuas mãos.
É mesmo uma merda não poder pegar numa folha de papel e numa caneta e escrever, escrever…até perder a inspiração e rasgar tudo o que tinha escrito. Ou tentar de novo… ou beber até me voltar a inspiração.
O álcool sempre me inspirou. Abria-me os portões do meu subconsciente e permitia-me escrever tudo aquilo que a minha consciência castradora me impedia revelar.
Tornava-me numa criatura deveras estranha quando me embebedava.
Entrava num período cósmico que incluía ficar horas a olhar para um tijolo para o tentar compreender. Ficava parada, contemplando algo num longo período de meditação. Não falava pois tinha preguiça. Era como se o meu cérebro não conseguisse executar algo tão simples como abrir e fechar a boca e deixar que saísse som.
No entanto tinha pensamentos extremamente lúcidos e organizados.
O pouco que eu dizia era coerente e se por acaso agarrava numa caneta e escrevia o que me ia na alma, as palavras fluíam de mim como a urina flúi da bexiga depois de beber dois litros de cerveja.
Tu pelo contrário eras um actor nato!
Nem mesmo quando estavas podre de bêbedo, davas a entender.
Nem os teus olhos te denunciavam…
Só mesmo quem te conhecesse muito bem e prestasse muita atenção ao que tu fazias, é que poderia apanhar-te em falso. Eram certas atitudes que nunca terias se estivesses sóbrio. Tornavas-te obsessivamente cuidadoso com cada gesto, cada palavra.

No arquivo das minhas lembranças tu virás sempre em primeiro lugar.

Todas as nossas correspondências na aula, todos os teus poemas, todos os teus pensamentos escritos que eu consegui guardar num dossier deveras piroso e demasiado pequeno para abarcar tantos sentimentos, e ideias, e sonhos…
Era em noites como esta que eu me sentava na minha cama e arquivava todos os acontecimentos no meu dossier. Colava cada imagem, cada palavra, e virava a folha.
Amanhã será um novo dia…
E uma nova folha também…

sábado, 17 de novembro de 2007

Continuação do IX Capítulo

Foram tantas as vezes que desejei ser perfeita.
Tantas vezes desejei ser tudo aquilo com que um dia sonhaste.
Mas não sou.
Estou muito longe de o ser.
Sempre desejei ser daquele tipo de raparigas cheias de qualidades e pobres em defeitos, de quem é impossível não gostar.
‘Tá bem, ‘tá!
Fizeram-me exactamente ao contrário.
Beleza?! Ah! Quando Deus distribuiu a beleza pela humanidade eu devia estar na casa de banho a mudar o tampão!
Tive uma sorte do caraças pois consegui uma ou duas qualidades numa promoção generosa, e gostarem de mim, só um grupo muito restrito de totós é que conseguia aturar-me.
Eu era verdadeiramente impossível!
O meu humor parecia um elevador dum hotel super concorrido., ora estava na cave, ora estava na Penthouse.
Por vezes passava-me uma coisa má pelos olhos e disparava a minha raiva contra todos ao mínimo movimento. Outras vezes mergulhava num estado de depressão tão profundo que bastava um pequeno toque para que eu me desfizesse em pó.
Eu era realmente impossível!
Não sei como conseguiste aturar-me…
Talvez fosse a tua infinita paciência. Era por isso que eu te adorava.
Mas perfeição?... Bah!! Ninguém é perfeito. Pelo menos perfeito no sentido geral. Agora apercebo-me que o mais importante é sermos perfeitos para alguém e que esse alguém seja perfeito aos nossos olhos.
Tu também não eras a melhor coisa que se inventou depois da batata frita, é bom que se note.
Tinhas toneladas de defeitos absolutamente detestáveis, mas sabes, até aos defeitos eu achava graça.

Eras perfeitamente imperfeito…
Era por isso que nos dávamos tão bem…
Cabrão!
“Vaca”!
Ai!... Vamos lá ver se não queres levar um enxerto de porrada?
“E vamos lá ver se não queres levar uma nos cornos!”
Palhaço!
Puta leprosa!
Vês?! É disto que eu estou a falar, da forma como nos dávamos reluzentemente bem.
Podíamo-nos insultar com as palavras mais ordinárias e com os adjectivos mais grosseiros porque no fundo nenhum dos dois sentia o que dizia.
Era falar por falar.
Talvez tenha sido esse o nosso mal…
Sempre falámos muito, mas nunca dissemos nada.
Encarregámo-nos de esconder mutuamente até os sentimentos mais inocentes como se fossemos inimigos mortais..
Era permitido contar tudo a todos, fosse o que fosse, não importava. Mas quando se tratava de falar um com o outro… O silêncio era de ouro e deixávamos que as nossas mãos, os nossos olhos, os nossos gestos falassem por nós.
Era melhor assim.
Eu preferia assim.
Apesar da minha fama de boa comunicadora, nunca me entendi muito bem com as palavras, nem sequer as sabia utilizar na altura apropriada.
Aí fazia o que sempre fiz, deixava que o resto falasse por mim.
Por vezes dava-me bem.
Outras nem por isso…
Mas que se lixe! Não se pode ganhar sempre, n’est-ce pas vrai?

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

IX Capitulo

Apercebi-me um dia que já não seria capaz de viver sem ti.
Foi quando um dia faltaste às aulas por estares doente. Fiquei completamente à toa. Dezenas de pessoas e sentia-me mais sozinha que nunca. Como se estivesse presa numa minúscula ilha no meio do Pacifico onde não haviam nem animais, nem plantas, nada. Apenas o vazio…
Fiquei desesperada.
Quando me apercebi já era tarde demais.
Agora vivia em função da tua vida.
Descobri que te amava…
Descobri que já não estava apaixonada.
A paixão é um estado de loucura efémero. É rápido como um relâmpago e deixa marcas como um ferro em brasa. Parece durar para sempre até que um dia acaba. Acaba sempre, que ninguém se iluda. É como um ramo de rosas, são bonitas e perfumadas até ao dia em que murcham.
O amor é a essência pura da paixão. Refinada através dos mais elaborados processos. O verdadeiro amor não morre, é eterno. Quando se ama, não é preciso mais para se ser feliz.
Estupidamente feliz.
Foi assim que descobri que te amava.

Nunca compreendeste o meu amor.
Foi uma pena…
Não sei ao certo de quem foi a culpa, se é que alguém teve culpa nesta história, mas se calhar até foi minha.
Talvez não tenha sido capaz de demonstrar como era grande o meu amor por ti.
E olha que era bem grande.
Tão grande que transbordou para as minhas mãos e para os meus olhos, pois o meu coração não era suficientemente grande para o guardar.
Eu teria feito qualquer coisa por ti.
Ter-te-ia dado as estrelas e a lua se mas tivesses pedido. Ainda não sei bem como o faria, mas eu cá me arranjava.

“Às vezes gostava de ser uma anjo que apenas veio à Terra para de um certo modo marcar a sua presença na vida dos outros. E depois desaparecer. Olhar para todos os que fizeram parte da minha vida terrena, lá de cima, e ver de que modo a minha vida os influenciou… e aí ver quem alguma vez gostou um mínimo de mim…”
Escreves-te isto pouco depois de me matares e partiste-me o coração.
Tanto sofrimento…
O que eu não faria para apagar esse sofrimento da tua vida e devolver o sorriso de ouro ao teu rosto de anjo.
Fizeste que eu sentisse raiva de mim por nunca te ter dito o que eu realmente sentia por ti.
Nunca poderás sentir como me marcaste a vida pois eu não conheço as palavras para to dizer. Talvez, quando um dia gostares verdadeiramente de alguém, possas ouvir essas palavras sem que eu tenha de as pronunciar. Talvez aí me possas compreender.

domingo, 21 de outubro de 2007

II Parte / VIII Capitulo

Eu sou má.
Agora estou em todo o lado.
Sou eu… Não me reconheces?
Estou no copo de café com gelo, na rodela de limão do teu Ginger Ale, nos fios de queijo da tua tosta mista, na tua aspirina com Coca-Cola, no teu Safari com Whisky, na tela dos teus quadros, no picotado do teu papel higiénico, nos teus CD’s, no teu chá de menta, nas páginas dos teus cadernos que negligentemente arrancas…
Sou eu.
Não me reconheces?
O rapaz libertou-me do suplício onde me havias prendido. O meu corpo pertence-lhe, mas a minha alma,… a minha alma nunca será sua.
Não sei ao certo como explicar esta estranha passagem da minha vida, mas digamos apenas que o rapaz adora absinto, e a música Rave subiu-lhe à cabeça..
Foi ter comigo.
Escavou os sete palmos de escuridão que me cobriam e abriu o caixão onde um dia me encerraste.
Foi nesse momento,… nesse preciso momento, que eu me tornei no que sou hoje. Uma pobre alma incorpórea que está em todo o lado.
Ele ficou com o meu corpo meio apodrecido, mas a minha alma escapou-se para além do invisível.
É estranho voltar a caminhar no mundo dos vivos. Tive que voltar a aprender muita coisa.
Agora posso fazer o que apetece. Tenho o poder de ser tudo aquilo que um dia desejei ser.
Poderia vingar-me de ti.
Poderia matar-te.
Fazer-te sofrer como me fizeste sofrer a mim.
Deixavas de existir.
E eu ficaria feliz…
Não… Não ficava.
Como queres que eu fique feliz ao ver-te sofrer?
Para mim é impossível.
Ainda gosto demasiado de ti.
O mal disto tudo sou eu!
Eu odeio-me!
E tudo por causa de quem?
De ti!
Eu adoro-te…
Mas devia odiar-te!
Vês?! É aqui que eu falho! É em ti que reside a grande falha da minha miserável existência!
Eu daria a minha alma ao Diabo só para te poder esquecer.
Raios te partam!!
Que legiões de demónios te levem para o teu – e meu – eterno descanso!
A culpa não é tua…
É realmente uma pena…
Mas porquê?
Porque é que me mataste?
Estavas assim tão farto de mim que não suportasses a possibilidade de continuar a partilhar este planeta comigo?
Não podias simplesmente ter-me comprado uns patins?
Tinha-te saído mais barato.
E a mim também…

Sabes o que é o Inferno?
Eu sei…
É a impossibilidade de te tocar estando a dois centímetros de ti, é a impossibilidade de voltar a ouvir todas as palavras que um dia me disseste, é a impossibilidade de me voltar a envolver no sentimento que um dia me dedicaste.
Acabou-se…
E o que eu vejo? Alguém que age como se eu não existisse, como se eu não estivesse sempre ao seu lado, porque não me consegue ver.
Ignoras-me.
Queres saber o que é o Inferno? Pois aqui o tens.
Tu foste o Anjo Negro encarregue de recrutar a minha alma neste mundo sombrio.
Foi essa a tua missão.
Não faz mal…
O mal de tudo foram as palavras… Com palavras me salvaste, e com palavras me mataste. Podia ter sido de qualquer outra forma, é bom que se note, mas escolheste as palavras.
Nunca usaste violência física. Não precisavas. Conhecias as palavras que desfaziam… que feriam como uma faca mal afiada.
Usaste-as tantas vezes…
Deus do céu! Como as usaste!
Mataste-me naquele dia e mataste-me antes e mataste-me depois com palavras e gestos e silêncio.
Continuas a matar-me.
A minha vida… quer dizer, esta miserável forma de existência, se é que assim lhe podemos chamar, é demasiado monótona.
Choco com as pessoas na rua, mas nem preciso pedir desculpa pois elas não me conseguem ver, nem tão pouco sentir.
Devo confessar que faço algumas maldades… E a minha curiosidade leva-me a fazer coisas que dariam para ser excomungada, mas tu conheces-me… certas coisas são mais forte que eu.
Tantos velhinhos tropeçaram “acidentalmente”.
Tantos meninos ficaram sem boxers.
Tantas vezes passei as minhas mãos pelas tuas costas no duche…
Eu sei…eu sei… Eu sou tão mazinha!
A tua vida também não se pode considerar a festa do ano. Continuas na mesma escola, com os mesmos amigos, com os mesmos hábitos… Não mudaste nada, ainda assim cresceste.
Continuas sozinho… Centenas de pessoas à tua volta e continuas sozinho.
Sinto-me mesquinhamente por não teres encontrado ninguém que me substituísse na minha função preferida: adorar-te.
Ainda bem…
Sabes bem como sou. Se houvesse mais alguém na história eu retirava-me. Seria muita gente ao mesmo, e se há coisa que eu detesto é falta de originalidade.
A minha invisibilidade permitiu-me descobrir muita coisa a teu respeito.
Descobri que por trás dessa máscara de gelo, se esconde afinal o mais sensível dos seres.
E fico feliz…
Fico feliz pois sou a única a sabê-lo.
Fico feliz pois tenho mais um milhão de motivos para te adorar.
Fico feliz por poder partilhar este pequeno segredo contigo.
Não te preocupes…
Guardá-lo-ei com a minha vida.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Continuação do VII Capitulo





Um dia perguntei-te como seria a rapariga com quem gostarias de te casar. Disseste que tinhas dois modelos. Claro! Tu, e a mania das variedades!!
Os dois modelos eram bastante distintos, mas com alguns pontos em comum: o corpo da Eva Herzigova, e o facto de serem diferentes das raparigas comuns.
O teu primeiro modelo era qualquer coisa do género: Corpo da Eva Herzigova, 1m65, cabelos dourados e ligeiramente encaracolados, vestiria roupas indianas, Biólogo do Greenpeace, meiga e doce, sem ser demasiado pegajosa, pois quando o mel é muito até a abelha se afoga.
O segundo modelo era bastante diferente. Mantinha-se o corpo da Eva Herzigova, mas teria cabelos negros e lisos, olhos violeta (como se existisse alguém assim!), vestiria de preto, exuberante sem roçar os limites da piroseira, seria pintora, faria pratos exóticos estranhos, daria valor às pequenas coisas da vida, e embora fosse doce como a outra seria bem mais dicidida.
Foste um pouco vago na descrição das qualidades. Esqueceste-te do mais importante.
Mas numa coisa foste bastante específico e objectivo: os defeitos.
Nenhuma delas seria possessiva, egoísta, ciumenta (bem, talvez… mas sou um pouco), má, antipática, etc….
Nunca entendi porquê, mas quando tentavas descrever as qualidades de alguém, faltavam-te sempre as palavras. Não conseguias encontrar adjectivos. Mas os defeitos… Ah! Recitavas o dicionário completo!
Estranho, não é?
E ainda mais estranho era o facto de que quando apontavas defeitos, parecia que todos eles de alguma forma eram meus. Como se eu possuísse todos os defeitos detestáveis que um ser humano possa possuir.
Talvez fosse verdade…
Talvez fosse o meu ego que pensa que tudo gira à volta de mim.
Mas ainda assim, e apesar dos meus detestáveis defeitos, fui a única a adorar-te acima de tudo.
Acho que foi esse o meu mais detestável defeito.
Possessivíssimo…
Ainda hoje não engulo bem a palavra.
Não é por ser comprida, mas por todas a vezes que me chamaste possessiva.
Foi realmente uma pena…
Destino…Ah!
O próximo palhaço que me falar em destino, leva um murro nas trombas!
Não me venham com a desculpa do destino cada vez que a coisa dá para o torto.
Como alguém disse um dia: “O Inferno são os outros”.
Homem sábio…
Quase aposto que foi mais outro excêntrico que se suicidou. Como se ele soubesse o que é o Inferno…
Mas por outro lado sou levada a concordar com o Kurt Cobain que disse: “Mais vale morrer que esvanecer”.
Mais outro totó que se matou…
Eram todos tipos porreiros. Gostava de os ter conhecido.
Eles ao menos poderiam compreender-me.
Foi realmente uma pena…
Estou morta…
Estou com sono… Acho que vou dormir.
Despeço-me com a sábia frase:
“As meninas boas vão para o céu, as más vão para todo o lado”.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

VII Capítulo




As verdadeiras estrelas apenas brilham na escuridão.
Este foi um dos pensamentos que eu inventei para me animar quando a vida me corria mal.
Basicamente o que esta frase quer dizer é que todos os que atravessam o deserto do sofrimento no presente, terão um oásis de felicidade no futuro.
Este pensamento sempre me alegrou.
Mais uma mentira…
Eu nunca alcancei nenhum oásis de felicidade.
Talvez porque eu própria não me possa considerar uma estrela, nem tão pouco tive a sorte de atravessar o deserto do sofrimento.
O único deserto que atravessei foi o do vazio.
O vácuo…
O silêncio interminável…
Anos de normalidade aborrecida.

Pouco soubeste da minha vida.
Eu ainda menos soube da tua.
A verdade é que poucas vezes me dei ao trabalho de responder com a verdade às muitas vezes que me fazias.
Verdade para quê?
Já me basta ter verdade no nome…
Deixo a mentira para a vida.
Tu parvalhão…
Tu longe…
Eu podre de triste…
Eu cansada…
Eu só…
Os teus olhos…
Deus do Céu!... Quem não se afogaria de boa vontade nesses olhos de água suja?
Para mim, há muito que tu tinhas deixado de ser um simples ser humano, e tinha agora asas onde todos os outros têm ombros.
Tinha uma verdadeira adoração por ti.
Pior que os fanáticos islâmicos…
Não sei porque te adorava assim.
És o meu Anjo…
O meu Anjo de Olhos Tristes…
O meu amor por ti há muito que tinha deixado de ser físico.
A verdade é que se tinha tornado puro e inocente, como o amor de dois irmãos que cometeram incesto.
Tanto poderia ficar o resto da vida a olhar para ti em silêncio, admirando-te nas trevas, como poderia descer ao nível da mais reles das meretrizes e possuir-te até o Diabo nos levar a alma.
Sempre tive este pequeno problema de expressão que nunca me permitiu pôr em palavras o que eu realmente sentia.
Tentei muitas vezes…
Nunca consegui.
Mas para quê palavras se Deus nos deu os olhos, as mãos, a boca…
Para quê palavras quando o silêncio é muito mais interessante.
Adorei-te no puro sentido da palavra.
Ainda hoje me pergunto como pudeste não perceber?
Sempre disseste que eu disfarçava bem os meus sentimentos… Talvez tenha sido por isso que não percebeste.
Aliás, é fácil entender… Como é possível compreender um sentimento que nunca experimentámos?
Preferiste chamar-lhe possessivísmo…
Não me importo.
Eu sei que estou morta e que é tarde para me justificar…
Nunca foi possessivismo, ou qualquer outro sentimento doentio. Eram o teu desprezo e frieza que me faziam ficar insegura, disparando contra tudo e todos à minha volta, mesmo antes de ver o alvo.
Era a esperança de ver uma réstia do passado no teu sorriso ou no teu olhar.
Raras vezes a encontrei.
Pura antipatia, claro.
Preferiste chamar-lhe possessivismo…
Podes chamar-lhe o que quiseres.
Por mais que eu tente e por mais que eu me explique, tu nunca conseguirás entender.
É muito fácil criticar quem está do outro lado da história.
A crítica é a reacção natural dos ignorantes.
Se soubesses metade do que eu passei…
Se soubesses o que eu estou a passar…

Tenho saudades do rapaz…Lembras-te dele?
Ele nunca mais apareceu… Tu também não, mas isso era de esperar. Agora ele… Quem me dera que ele regressasse, que me salvasse deste suplicio com as suas palavras calmas e generosas.
Chocado?!
Já devias saber que não és a única pessoa a encher-me os pensamentos, nem tão pouco foste o primeiro a tirar-me horas de sono.
Houve um antes de ti.
Eu falei-te dele…
E como falei!!!...
Talvez porque fizemos uma grande maldade ao pobrezinho.
E foste tu o culpado!
Se não fossem esses teus olhos…
A traição é um Karma que se carrega para o resto da vida.
Eu estou a pagar bem caro por todo o mal que lhe fiz.
Eu fiz sofrer o outro rapaz da mesma forma que tu me fizeste sofrer a mim.
Eu fui injusta, eu fui cobarde…
Mas estava tão inebriada… contigo.
Foi mais uma das lições que a vida me ensinou… Quando fazemos mal a alguém podemos ter a certeza que vamos pagar bem caro por isso.
Mais cedo ou mais tarde todos nós saldamos as nossas dívidas de uma forma ou de outra.
Foi por isso que eu nunca me dei ao trabalho de me vingar de quem quer que fosse. Não vale a pena. Escusamos de sujar as nossas mãos com seres inferiores, e podemos ainda assim, assistir confortavelmente da primeira fila, à sua queda.
Não é justiça divina.
É justiça da vida, e nesta eu dou-me ao luxo de acreditar.
Poor Little John… Sim, era esse o seu nome. Espero que ainda te lembres, afinal foste tu que lho deste. Se arrependimento matasse…
Não tinha o direito de fazer o que fiz…
Eu fui injusta com ele…
E agora estou a pagar bem caro…
Tu… Tu foste o meu Karma!

Eu sei que não fui feita para ti.
Foi neste ponto que a vida errou… Tu foste feito para mim.
Estranho como a vida nos juntou.
Foi um erro… Mais um erro que a vida cometeu. E como sempre, desse erro resultou o sofrimento. O meu…

terça-feira, 2 de outubro de 2007

VI Capítulo




Capítulo VI

Grito pelo teu nome.
Sei que não me podes ouvir.
Por vezes penso que já te esqueci…
È provável que sim…
Mentira.
Basta-me lembrar dos teus olhos de caleidoscópio para que o amor me cegue novamente.
Sempre quis escrever um livro.
Comecei muitos…
Não acabei nenhum.
Não gostava do que escrevia.
Gostaria de poder escrever um livro sobre os teus olhos. Para que eles passassem para a posteridade. Imortalizá-los num Bestseller a nível mundial. Daqueles que toda a gente compra, mas ninguém lê.
Falta de tempo…
Falta de paciência…
Bonito para preencher a prateleira.
Ainda bem…
Teria o consolo de ser a última a vê-los. “Vê-los”, pois ninguém os viu realmente. Muita gente os elogiou, reconheceu a sua beleza, mas ninguém mergulhou neles, ninguém conseguiu misturar-se com o infinito do seu brilho nem com as suas cores indefinidas.
Só eu…
Acho que a forma como vemos os olhos de alguém tem muito a ver com os sentimentos que dedicamos a essa pessoa. Quanto mais profundos forem os sentimentos, maior é o mergulho.
A vida tem destas coisas.
E os teus olhos também.

Onde estás?
Que fizeste dessa vida que um dia partilhaste comigo.
Lembras-te de como éramos inseparáveis?
Até respirar perdia o sentido quando estávamos longe um do outro, e agora…
Bizarro como tudo passa e muda. Como tudo se altera.
O Tempo é como a esponja do quadro de uma sala de aulas. A sua função é apagar tudo o que escrevemos na nossa vida. Devolver tudo ao esquecimento, que afinal é o melhor lugar para certo tipo de coisas. Como eu… Num momento preenchi o quadro da tua vida, no outro fui cruelmente apagada, devolvida ao esquecimento como um maldito exercício de matemática.

O verão está a chegar ao fim.
O tempo aqui passa de maneira peculiar. Os dias parecem anos e os meses parecem centésimos de segundo.
Tudo se confunde e mistura nas rendas do meu caixão.
Até quando?
Até quando ficarei aqui, sofrendo a tortura de me ver desaparecer.
1 de Outubro…
Lembras-te?
Teria sido um dia como outro qualquer se eu não te adorasse e tu não me tivesses matado.
Perdi a pressa…
Perdi a inspiração para continuar a escrever coisas bonitas.
Sempre que penso nesse dia fico desesperada e as lágrimas, que já nem existem, reúnem-se em protesto na minha garganta e sufocam-me.
Deixo de respirar.
Deixo de pensar.
Acabaste comigo nesse dia.
Não foi só a mim que atiraste do cimo daquela torre, foi tudo o que de mais bonito existiu neste mundo.
O meu amor…O meu eterno amor.
Eterno como o tempo da minha queda.
Eterno como o som dos meus ossos a esmagarem-se contra a dureza do chão.
A minha adoração por ti foi um pouco como a minha morte. Começou como um acidente e acabou em desgraça.
Será que tiveste coragem de admitir que foste tu quem me matou, ou deixaste que me ridicularizassem como “mais uma vitima de acidente” ou como “um trambolho com excesso de peso e falta de competência para descer umas simples escadas”?
Que importa isso agora?
Sempre pensei que os mortos não sentiam nada… Mas que sabemos nós das coisas até as experimentarmos.
Até hoje nunca tinha relembrado aquela noite com tanta clareza… Foi tudo tão estúpido que mais parecia um quadro psicadélico-dramático.
Podia descrever todos os passos que demos, todas as palavras que me disseste, mas para quê fazê-lo?
Estávamos na nossa torre.
Ao descer os degraus, rebolei as escadas e sem saber como saltei o pequeno muro que as rodeavam.
Nesse momento deixei de acreditar em Deus.
Pensei que ia morrer.
Apesar de nunca ter dado muito valor à vida, naquele momento agarrei-me a ela com quantas forças tinha. Gritei por ti, mas não apareceste. Gritei novamente e por fim apareceste. Mas o teu rosto não era o mesmo. Meteste-me medo. O teu rosto parecia o de um fantasma ou demónio, e estavas insuportavelmente calmo, como se tivesses tomado uma overdose de Valium’s . Olhavas-me com uma frieza que me gelou o sangue. Debruçaste-te sobre o muro e disseste que te agarrasse a mão, que me irias salvar.
Confiei em ti. Agarrei-a.
Fiquei então suspensa apenas pela mão que segurava a tua. Esperei que me içasses para cima, mas não o fizeste. Pedi-te para o fazeres, mas ficaste impávido e sereno. Olhando-me da mesma forma distante.
Comecei a ficar desesperada.
Não conseguia entender por que me estavas a fazer aquilo.
Lançaste-me um último sorriso sádico e por fim disseste:
“Adeus”
Largaste a minha mão e foi como se o meu corpo pairasse na descida. Devagar… Devagar…Como se tudo tivesse parado e o teu sorriso ficasse eternamente sádico. Como se eu tivesse todo o tempo do mundo antes de atingir o chão.
Ainda hoje não entendo como o conseguiste fazer…
Um dia escreveste-me um poema como resposta a um outro que eu te tinha escrito antes, e que era deste género:

“Não sei o que fazer
Se me largo a rir
Ou se me afogo em lágrimas
Não tenho nada a perder
A não ser o teu amor.
Mas se isto acontecer
Vou tentar esquecer
Mas não me vou esconder.
A verdade foi feita para ser dita
E o que mais me irrita
É que a verdade seja dita.
Quero viver neste mundo de fantasia
Até que o fogo comece a gelar
A água a arder
E o Diabo a rezar.
Só aí poderei deixar de te amar
E tu deixarás de me merecer…”

Foi a coisa mais bonita que alguma vez me escreveram…
E no fim, junto com a tua assinatura, escreveste: “Até que a morte nos separe”.
Tinhas razão…
Foi a morte que nos separou.
Foi por isso que me mataste? Para poderes ver-te livre de mim?
Ainda bem que o fizeste.
Se me tivesses abandonado de outra forma eu mesma o teria feito, e agora, mais do que nunca, acho que o suicídio é ainda menos digno.
Agora que penso no que aconteceu, deixei de te odiar e agradeço-te eternamente…
Obrigado…