domingo, 21 de outubro de 2007

II Parte / VIII Capitulo

Eu sou má.
Agora estou em todo o lado.
Sou eu… Não me reconheces?
Estou no copo de café com gelo, na rodela de limão do teu Ginger Ale, nos fios de queijo da tua tosta mista, na tua aspirina com Coca-Cola, no teu Safari com Whisky, na tela dos teus quadros, no picotado do teu papel higiénico, nos teus CD’s, no teu chá de menta, nas páginas dos teus cadernos que negligentemente arrancas…
Sou eu.
Não me reconheces?
O rapaz libertou-me do suplício onde me havias prendido. O meu corpo pertence-lhe, mas a minha alma,… a minha alma nunca será sua.
Não sei ao certo como explicar esta estranha passagem da minha vida, mas digamos apenas que o rapaz adora absinto, e a música Rave subiu-lhe à cabeça..
Foi ter comigo.
Escavou os sete palmos de escuridão que me cobriam e abriu o caixão onde um dia me encerraste.
Foi nesse momento,… nesse preciso momento, que eu me tornei no que sou hoje. Uma pobre alma incorpórea que está em todo o lado.
Ele ficou com o meu corpo meio apodrecido, mas a minha alma escapou-se para além do invisível.
É estranho voltar a caminhar no mundo dos vivos. Tive que voltar a aprender muita coisa.
Agora posso fazer o que apetece. Tenho o poder de ser tudo aquilo que um dia desejei ser.
Poderia vingar-me de ti.
Poderia matar-te.
Fazer-te sofrer como me fizeste sofrer a mim.
Deixavas de existir.
E eu ficaria feliz…
Não… Não ficava.
Como queres que eu fique feliz ao ver-te sofrer?
Para mim é impossível.
Ainda gosto demasiado de ti.
O mal disto tudo sou eu!
Eu odeio-me!
E tudo por causa de quem?
De ti!
Eu adoro-te…
Mas devia odiar-te!
Vês?! É aqui que eu falho! É em ti que reside a grande falha da minha miserável existência!
Eu daria a minha alma ao Diabo só para te poder esquecer.
Raios te partam!!
Que legiões de demónios te levem para o teu – e meu – eterno descanso!
A culpa não é tua…
É realmente uma pena…
Mas porquê?
Porque é que me mataste?
Estavas assim tão farto de mim que não suportasses a possibilidade de continuar a partilhar este planeta comigo?
Não podias simplesmente ter-me comprado uns patins?
Tinha-te saído mais barato.
E a mim também…

Sabes o que é o Inferno?
Eu sei…
É a impossibilidade de te tocar estando a dois centímetros de ti, é a impossibilidade de voltar a ouvir todas as palavras que um dia me disseste, é a impossibilidade de me voltar a envolver no sentimento que um dia me dedicaste.
Acabou-se…
E o que eu vejo? Alguém que age como se eu não existisse, como se eu não estivesse sempre ao seu lado, porque não me consegue ver.
Ignoras-me.
Queres saber o que é o Inferno? Pois aqui o tens.
Tu foste o Anjo Negro encarregue de recrutar a minha alma neste mundo sombrio.
Foi essa a tua missão.
Não faz mal…
O mal de tudo foram as palavras… Com palavras me salvaste, e com palavras me mataste. Podia ter sido de qualquer outra forma, é bom que se note, mas escolheste as palavras.
Nunca usaste violência física. Não precisavas. Conhecias as palavras que desfaziam… que feriam como uma faca mal afiada.
Usaste-as tantas vezes…
Deus do céu! Como as usaste!
Mataste-me naquele dia e mataste-me antes e mataste-me depois com palavras e gestos e silêncio.
Continuas a matar-me.
A minha vida… quer dizer, esta miserável forma de existência, se é que assim lhe podemos chamar, é demasiado monótona.
Choco com as pessoas na rua, mas nem preciso pedir desculpa pois elas não me conseguem ver, nem tão pouco sentir.
Devo confessar que faço algumas maldades… E a minha curiosidade leva-me a fazer coisas que dariam para ser excomungada, mas tu conheces-me… certas coisas são mais forte que eu.
Tantos velhinhos tropeçaram “acidentalmente”.
Tantos meninos ficaram sem boxers.
Tantas vezes passei as minhas mãos pelas tuas costas no duche…
Eu sei…eu sei… Eu sou tão mazinha!
A tua vida também não se pode considerar a festa do ano. Continuas na mesma escola, com os mesmos amigos, com os mesmos hábitos… Não mudaste nada, ainda assim cresceste.
Continuas sozinho… Centenas de pessoas à tua volta e continuas sozinho.
Sinto-me mesquinhamente por não teres encontrado ninguém que me substituísse na minha função preferida: adorar-te.
Ainda bem…
Sabes bem como sou. Se houvesse mais alguém na história eu retirava-me. Seria muita gente ao mesmo, e se há coisa que eu detesto é falta de originalidade.
A minha invisibilidade permitiu-me descobrir muita coisa a teu respeito.
Descobri que por trás dessa máscara de gelo, se esconde afinal o mais sensível dos seres.
E fico feliz…
Fico feliz pois sou a única a sabê-lo.
Fico feliz pois tenho mais um milhão de motivos para te adorar.
Fico feliz por poder partilhar este pequeno segredo contigo.
Não te preocupes…
Guardá-lo-ei com a minha vida.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Continuação do VII Capitulo





Um dia perguntei-te como seria a rapariga com quem gostarias de te casar. Disseste que tinhas dois modelos. Claro! Tu, e a mania das variedades!!
Os dois modelos eram bastante distintos, mas com alguns pontos em comum: o corpo da Eva Herzigova, e o facto de serem diferentes das raparigas comuns.
O teu primeiro modelo era qualquer coisa do género: Corpo da Eva Herzigova, 1m65, cabelos dourados e ligeiramente encaracolados, vestiria roupas indianas, Biólogo do Greenpeace, meiga e doce, sem ser demasiado pegajosa, pois quando o mel é muito até a abelha se afoga.
O segundo modelo era bastante diferente. Mantinha-se o corpo da Eva Herzigova, mas teria cabelos negros e lisos, olhos violeta (como se existisse alguém assim!), vestiria de preto, exuberante sem roçar os limites da piroseira, seria pintora, faria pratos exóticos estranhos, daria valor às pequenas coisas da vida, e embora fosse doce como a outra seria bem mais dicidida.
Foste um pouco vago na descrição das qualidades. Esqueceste-te do mais importante.
Mas numa coisa foste bastante específico e objectivo: os defeitos.
Nenhuma delas seria possessiva, egoísta, ciumenta (bem, talvez… mas sou um pouco), má, antipática, etc….
Nunca entendi porquê, mas quando tentavas descrever as qualidades de alguém, faltavam-te sempre as palavras. Não conseguias encontrar adjectivos. Mas os defeitos… Ah! Recitavas o dicionário completo!
Estranho, não é?
E ainda mais estranho era o facto de que quando apontavas defeitos, parecia que todos eles de alguma forma eram meus. Como se eu possuísse todos os defeitos detestáveis que um ser humano possa possuir.
Talvez fosse verdade…
Talvez fosse o meu ego que pensa que tudo gira à volta de mim.
Mas ainda assim, e apesar dos meus detestáveis defeitos, fui a única a adorar-te acima de tudo.
Acho que foi esse o meu mais detestável defeito.
Possessivíssimo…
Ainda hoje não engulo bem a palavra.
Não é por ser comprida, mas por todas a vezes que me chamaste possessiva.
Foi realmente uma pena…
Destino…Ah!
O próximo palhaço que me falar em destino, leva um murro nas trombas!
Não me venham com a desculpa do destino cada vez que a coisa dá para o torto.
Como alguém disse um dia: “O Inferno são os outros”.
Homem sábio…
Quase aposto que foi mais outro excêntrico que se suicidou. Como se ele soubesse o que é o Inferno…
Mas por outro lado sou levada a concordar com o Kurt Cobain que disse: “Mais vale morrer que esvanecer”.
Mais outro totó que se matou…
Eram todos tipos porreiros. Gostava de os ter conhecido.
Eles ao menos poderiam compreender-me.
Foi realmente uma pena…
Estou morta…
Estou com sono… Acho que vou dormir.
Despeço-me com a sábia frase:
“As meninas boas vão para o céu, as más vão para todo o lado”.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

VII Capítulo




As verdadeiras estrelas apenas brilham na escuridão.
Este foi um dos pensamentos que eu inventei para me animar quando a vida me corria mal.
Basicamente o que esta frase quer dizer é que todos os que atravessam o deserto do sofrimento no presente, terão um oásis de felicidade no futuro.
Este pensamento sempre me alegrou.
Mais uma mentira…
Eu nunca alcancei nenhum oásis de felicidade.
Talvez porque eu própria não me possa considerar uma estrela, nem tão pouco tive a sorte de atravessar o deserto do sofrimento.
O único deserto que atravessei foi o do vazio.
O vácuo…
O silêncio interminável…
Anos de normalidade aborrecida.

Pouco soubeste da minha vida.
Eu ainda menos soube da tua.
A verdade é que poucas vezes me dei ao trabalho de responder com a verdade às muitas vezes que me fazias.
Verdade para quê?
Já me basta ter verdade no nome…
Deixo a mentira para a vida.
Tu parvalhão…
Tu longe…
Eu podre de triste…
Eu cansada…
Eu só…
Os teus olhos…
Deus do Céu!... Quem não se afogaria de boa vontade nesses olhos de água suja?
Para mim, há muito que tu tinhas deixado de ser um simples ser humano, e tinha agora asas onde todos os outros têm ombros.
Tinha uma verdadeira adoração por ti.
Pior que os fanáticos islâmicos…
Não sei porque te adorava assim.
És o meu Anjo…
O meu Anjo de Olhos Tristes…
O meu amor por ti há muito que tinha deixado de ser físico.
A verdade é que se tinha tornado puro e inocente, como o amor de dois irmãos que cometeram incesto.
Tanto poderia ficar o resto da vida a olhar para ti em silêncio, admirando-te nas trevas, como poderia descer ao nível da mais reles das meretrizes e possuir-te até o Diabo nos levar a alma.
Sempre tive este pequeno problema de expressão que nunca me permitiu pôr em palavras o que eu realmente sentia.
Tentei muitas vezes…
Nunca consegui.
Mas para quê palavras se Deus nos deu os olhos, as mãos, a boca…
Para quê palavras quando o silêncio é muito mais interessante.
Adorei-te no puro sentido da palavra.
Ainda hoje me pergunto como pudeste não perceber?
Sempre disseste que eu disfarçava bem os meus sentimentos… Talvez tenha sido por isso que não percebeste.
Aliás, é fácil entender… Como é possível compreender um sentimento que nunca experimentámos?
Preferiste chamar-lhe possessivísmo…
Não me importo.
Eu sei que estou morta e que é tarde para me justificar…
Nunca foi possessivismo, ou qualquer outro sentimento doentio. Eram o teu desprezo e frieza que me faziam ficar insegura, disparando contra tudo e todos à minha volta, mesmo antes de ver o alvo.
Era a esperança de ver uma réstia do passado no teu sorriso ou no teu olhar.
Raras vezes a encontrei.
Pura antipatia, claro.
Preferiste chamar-lhe possessivismo…
Podes chamar-lhe o que quiseres.
Por mais que eu tente e por mais que eu me explique, tu nunca conseguirás entender.
É muito fácil criticar quem está do outro lado da história.
A crítica é a reacção natural dos ignorantes.
Se soubesses metade do que eu passei…
Se soubesses o que eu estou a passar…

Tenho saudades do rapaz…Lembras-te dele?
Ele nunca mais apareceu… Tu também não, mas isso era de esperar. Agora ele… Quem me dera que ele regressasse, que me salvasse deste suplicio com as suas palavras calmas e generosas.
Chocado?!
Já devias saber que não és a única pessoa a encher-me os pensamentos, nem tão pouco foste o primeiro a tirar-me horas de sono.
Houve um antes de ti.
Eu falei-te dele…
E como falei!!!...
Talvez porque fizemos uma grande maldade ao pobrezinho.
E foste tu o culpado!
Se não fossem esses teus olhos…
A traição é um Karma que se carrega para o resto da vida.
Eu estou a pagar bem caro por todo o mal que lhe fiz.
Eu fiz sofrer o outro rapaz da mesma forma que tu me fizeste sofrer a mim.
Eu fui injusta, eu fui cobarde…
Mas estava tão inebriada… contigo.
Foi mais uma das lições que a vida me ensinou… Quando fazemos mal a alguém podemos ter a certeza que vamos pagar bem caro por isso.
Mais cedo ou mais tarde todos nós saldamos as nossas dívidas de uma forma ou de outra.
Foi por isso que eu nunca me dei ao trabalho de me vingar de quem quer que fosse. Não vale a pena. Escusamos de sujar as nossas mãos com seres inferiores, e podemos ainda assim, assistir confortavelmente da primeira fila, à sua queda.
Não é justiça divina.
É justiça da vida, e nesta eu dou-me ao luxo de acreditar.
Poor Little John… Sim, era esse o seu nome. Espero que ainda te lembres, afinal foste tu que lho deste. Se arrependimento matasse…
Não tinha o direito de fazer o que fiz…
Eu fui injusta com ele…
E agora estou a pagar bem caro…
Tu… Tu foste o meu Karma!

Eu sei que não fui feita para ti.
Foi neste ponto que a vida errou… Tu foste feito para mim.
Estranho como a vida nos juntou.
Foi um erro… Mais um erro que a vida cometeu. E como sempre, desse erro resultou o sofrimento. O meu…

terça-feira, 2 de outubro de 2007

VI Capítulo




Capítulo VI

Grito pelo teu nome.
Sei que não me podes ouvir.
Por vezes penso que já te esqueci…
È provável que sim…
Mentira.
Basta-me lembrar dos teus olhos de caleidoscópio para que o amor me cegue novamente.
Sempre quis escrever um livro.
Comecei muitos…
Não acabei nenhum.
Não gostava do que escrevia.
Gostaria de poder escrever um livro sobre os teus olhos. Para que eles passassem para a posteridade. Imortalizá-los num Bestseller a nível mundial. Daqueles que toda a gente compra, mas ninguém lê.
Falta de tempo…
Falta de paciência…
Bonito para preencher a prateleira.
Ainda bem…
Teria o consolo de ser a última a vê-los. “Vê-los”, pois ninguém os viu realmente. Muita gente os elogiou, reconheceu a sua beleza, mas ninguém mergulhou neles, ninguém conseguiu misturar-se com o infinito do seu brilho nem com as suas cores indefinidas.
Só eu…
Acho que a forma como vemos os olhos de alguém tem muito a ver com os sentimentos que dedicamos a essa pessoa. Quanto mais profundos forem os sentimentos, maior é o mergulho.
A vida tem destas coisas.
E os teus olhos também.

Onde estás?
Que fizeste dessa vida que um dia partilhaste comigo.
Lembras-te de como éramos inseparáveis?
Até respirar perdia o sentido quando estávamos longe um do outro, e agora…
Bizarro como tudo passa e muda. Como tudo se altera.
O Tempo é como a esponja do quadro de uma sala de aulas. A sua função é apagar tudo o que escrevemos na nossa vida. Devolver tudo ao esquecimento, que afinal é o melhor lugar para certo tipo de coisas. Como eu… Num momento preenchi o quadro da tua vida, no outro fui cruelmente apagada, devolvida ao esquecimento como um maldito exercício de matemática.

O verão está a chegar ao fim.
O tempo aqui passa de maneira peculiar. Os dias parecem anos e os meses parecem centésimos de segundo.
Tudo se confunde e mistura nas rendas do meu caixão.
Até quando?
Até quando ficarei aqui, sofrendo a tortura de me ver desaparecer.
1 de Outubro…
Lembras-te?
Teria sido um dia como outro qualquer se eu não te adorasse e tu não me tivesses matado.
Perdi a pressa…
Perdi a inspiração para continuar a escrever coisas bonitas.
Sempre que penso nesse dia fico desesperada e as lágrimas, que já nem existem, reúnem-se em protesto na minha garganta e sufocam-me.
Deixo de respirar.
Deixo de pensar.
Acabaste comigo nesse dia.
Não foi só a mim que atiraste do cimo daquela torre, foi tudo o que de mais bonito existiu neste mundo.
O meu amor…O meu eterno amor.
Eterno como o tempo da minha queda.
Eterno como o som dos meus ossos a esmagarem-se contra a dureza do chão.
A minha adoração por ti foi um pouco como a minha morte. Começou como um acidente e acabou em desgraça.
Será que tiveste coragem de admitir que foste tu quem me matou, ou deixaste que me ridicularizassem como “mais uma vitima de acidente” ou como “um trambolho com excesso de peso e falta de competência para descer umas simples escadas”?
Que importa isso agora?
Sempre pensei que os mortos não sentiam nada… Mas que sabemos nós das coisas até as experimentarmos.
Até hoje nunca tinha relembrado aquela noite com tanta clareza… Foi tudo tão estúpido que mais parecia um quadro psicadélico-dramático.
Podia descrever todos os passos que demos, todas as palavras que me disseste, mas para quê fazê-lo?
Estávamos na nossa torre.
Ao descer os degraus, rebolei as escadas e sem saber como saltei o pequeno muro que as rodeavam.
Nesse momento deixei de acreditar em Deus.
Pensei que ia morrer.
Apesar de nunca ter dado muito valor à vida, naquele momento agarrei-me a ela com quantas forças tinha. Gritei por ti, mas não apareceste. Gritei novamente e por fim apareceste. Mas o teu rosto não era o mesmo. Meteste-me medo. O teu rosto parecia o de um fantasma ou demónio, e estavas insuportavelmente calmo, como se tivesses tomado uma overdose de Valium’s . Olhavas-me com uma frieza que me gelou o sangue. Debruçaste-te sobre o muro e disseste que te agarrasse a mão, que me irias salvar.
Confiei em ti. Agarrei-a.
Fiquei então suspensa apenas pela mão que segurava a tua. Esperei que me içasses para cima, mas não o fizeste. Pedi-te para o fazeres, mas ficaste impávido e sereno. Olhando-me da mesma forma distante.
Comecei a ficar desesperada.
Não conseguia entender por que me estavas a fazer aquilo.
Lançaste-me um último sorriso sádico e por fim disseste:
“Adeus”
Largaste a minha mão e foi como se o meu corpo pairasse na descida. Devagar… Devagar…Como se tudo tivesse parado e o teu sorriso ficasse eternamente sádico. Como se eu tivesse todo o tempo do mundo antes de atingir o chão.
Ainda hoje não entendo como o conseguiste fazer…
Um dia escreveste-me um poema como resposta a um outro que eu te tinha escrito antes, e que era deste género:

“Não sei o que fazer
Se me largo a rir
Ou se me afogo em lágrimas
Não tenho nada a perder
A não ser o teu amor.
Mas se isto acontecer
Vou tentar esquecer
Mas não me vou esconder.
A verdade foi feita para ser dita
E o que mais me irrita
É que a verdade seja dita.
Quero viver neste mundo de fantasia
Até que o fogo comece a gelar
A água a arder
E o Diabo a rezar.
Só aí poderei deixar de te amar
E tu deixarás de me merecer…”

Foi a coisa mais bonita que alguma vez me escreveram…
E no fim, junto com a tua assinatura, escreveste: “Até que a morte nos separe”.
Tinhas razão…
Foi a morte que nos separou.
Foi por isso que me mataste? Para poderes ver-te livre de mim?
Ainda bem que o fizeste.
Se me tivesses abandonado de outra forma eu mesma o teria feito, e agora, mais do que nunca, acho que o suicídio é ainda menos digno.
Agora que penso no que aconteceu, deixei de te odiar e agradeço-te eternamente…
Obrigado…

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Fim do V Capítulo



“É verãaaaaoooo! E os peixes andam aos saltos!” Lembras-te? Cantavas essa música como se fosse algo natural. Devias ter alguma coisa contra o verão para o massacrares dessa maneira. Mas sabes, o meu amor por ti era tão cego que até do raio da música eu gostava.
Amor…
Porque é que mais cedo ou mais tarde acabamos inevitavelmente por falar nele? Pergunto-me se algum dia serás capaz de amar alguém, da mesma forma que eu gostava de ti. Tanto, que tudo à minha volta se tornava banal quando estava contigo.
O verão…
Os vermes continuam o seu trabalho.
Há quanto tempo?...
“Há quanto tempo o quê?”
Há quanto tempo me mataste?
Mau! Mau! Mau!
Não bastava teres-me tratado como uma leprosa?!
Eu podia ter tido uma vida, porra!
Eu podia ter sido feliz!
Talvez contigo, talvez não…
Estranho… Agora que estou morta sei que nunca vou saber.
Está quase a fazer um ano.
Um ano… Que terá acontecido neste ano?
Para mim pareceu-me uma eternidade.
E para ti?
Que se foda tudo!
A morte, a vida, …Tudo!!
A ignorância…
Triste esta ignorância própria de quem está morta.
Quem me dera saber o que se passa aí em cima e poder, sei lá… fazer alguma coisa. Qualquer coisa.
Estou só…
Ninguém vem falar comigo.
Nem mesmo o rapaz… Lembras-te? Nem esse.
Estou só…
Como podemos saber o que os outros sentem?
Acho que devia falar com alguém…
Será que têm linhas do género “SOS Solidão” para mortos?
Estou a precisar.
Preciso falar com alguém…
Contar todas as minhas merdas e devaneios. Procurar um pouco de ajuda e conforto nas palavras de um outro alguém. Sempre me queixei que ninguém me compreendia…
Só tu…
Só tu me conseguias compreender.
Porque éramos iguais.

Estou a pensar em ti…
Nada de especial, bem sei…
Penso na violência que rodeava a nossa relação.
Violência física.
Adorava bater-te!
Adorava morder-te!
Puxar-te os cabelos!
Não sei porque o fazia. Talvez para te lembrar que eu existia, que estava ali.
Sempre.
Lembro-me que um dia te mordi o pescoço. Foi uma mordida rápida, inocente, como a de um vampiro, mas ainda assim fez sangue.
“Violenta!!” reclamaste tu. “Odeio quando me mordem!”. Dizias isso como se te mordessem muitas vezes… Tentei redimir-me com um beijo, mas como todo o criminoso que se preze voltei ao lugar do crime. Comecei a sugar-te a ferida como uma possuída.
Foste a única pessoa a quem provei o sangue.
O único.
No dia seguinte contaste-me que tinhas passado a noite com uma camisola de gola alta, morrendo de calor, para não se ver a mancha roxa que eu tinha deixado.
Adorava maltratar-te!
Eu sei que sempre me afirmei pacifista, mas contigo era diferente.
Adorava bater-te!
Especialmente depois dum beijo…
Apanhava-te desprevenido e ficavas sem reacção.
Às vezes ripostavas.
Batias-me…
Mas eu gostava.
Talvez te batesse porque no fundo adorava que me batesses também.
Eu sei… Eu sei…
Eu era uma masoquista…

terça-feira, 18 de setembro de 2007

V Capítulo

Se me perguntassem por que é que me apaixonei por ti, acho que não saberia o que responder.
O nosso amor não era racional, não tinha lógica ou método. Se um psicólogo o tentasse estudar, ou desistia ou enlouquecia.
Era impossível.
Não éramos iguais a ninguém.
Não conseguíamos fazer o que os outros faziam, por isso inventamos algo novo.
O nosso amor.
Diferente.
Bom.
Ou talvez não.
Tanto faz…

Aquele dia…
Gostaria do poder descrever, de contar a nossa história, para que mais ninguém caísse nesse engano. Na tentação de cometer o mesmo erro, mas não sou capaz…
Para contar uma história é preciso ter a cabeça fria, não estar envolvido emocionalmente, e eu neste momento… Além disso nunca fui muito boa a contar histórias. Deixava sempre essa tarefa para ti. Tinhas mais imaginação, mais paciência.
Aquele dia…
Uma tarde de primavera…
Estavas lindo…
Umas calças que julgavas serem modelo único, mesmo quando vias cem iguais à tua frente. Tinham tantas manchas que a minha imaginação divagava tentando descobrir como as tinhas feito.
Uma sweat-shirt preta… Era suposto ser preta, mas a tua espuma já a tinha massacrado tanto, que de preta só tinha mesmo o nome.
Os teus cabelos estavam selvaticamente soltos, pois para amargura tua ainda não eram suficientemente compridos para os prenderes, e as toneladas de espumas que lhes punhas escorriam em gotas pelo teu pescoço.
Estavas lindo…
Nesse dia contaste-me que um dia te deste ao trabalho de fazeres uma lista das pessoas que achavas mais feias que tu. Ainda hoje me pergunto como o teu ego e a tua auto-estima exacerbada to permitiram fazer, mas se calhar até fizeste mesmo. No entanto aposto que desististe quando a lista se tornou demasiado extensa.
Como é que não vias que eras lindo?!
Eu sei que nunca ninguém to disse, pelo menos não assim, a bandeiras despregadas, mas é para isso mesmo que eu existo. Para inchar ainda masi esse ego que cobre todo o Universo.
Aquele dia…
Estava tão feliz…
Tu também.
Parecia que todo o mundo estava feliz.
A felicidade é contagiosa.
Mal nós sabíamos o que estava para acontecer.
Ainda bem…
Ainda bem que a vida é feita de ignorância.
Aconteceu tudo tão depressa que nem tive tempo para respirar.
Ente um copo e outro, aconteceu uma vida de emoções e merdas.
Não dei por nada.
Aconteceu tudo tão naturalmente que nem dei pela chegada da felicidade.
Felicidade…
É tão desinteressante.
Não tem história.
Passa ao lado.
Só pensamos nela quando já se foi embora.
Merda! Só de pensar nisso fiquei triste outra vez!
E tu, continuas contente?
“Não tens nada a ver com isso!”
Eu sei que estás feliz.
“Mete-te mas é na tua vida!”
Estás feliz porque eu também estou.
“Somos tão parecidos que até enjoa!”
Não digas isso…
“Porquê?”
Porque é verdade e a mentira é que é boa!
Tu não consegues mentir.
“Quem se rala?”
Eu.
“Estou-me a cagar completamente para ti!”

Isto está errado.
Nós não éramos assim. Dávamo-nos bem, e dávamo-nos mal, mas nunca me trataste mal.
Jogo de engate…
É o melhor da história.
O nosso foi o melhor. Como a foda do século.
Foda que nunca demos, com muita pena minha.
Por vezes penso em sexo…
Sexo…
Suor…
Saliva…
Lágrimas…
Mãos no meu corpo. Mãos que me despem e me arrepiam.
Noites inteiras de sexo louco e selvagem…
Não existiram…
“Azarito, minha amiga”
Fica para a próxima…

O mal de tudo é o amor.
O amor fode tudo, mesmo aquilo que nunca foi fodido.
O amor… Entra na nossa vida como um amigo inesperado que veio para jantar. Sem aviso prévio ele chega e fode todos os nossos planos.
O amor… Creio que o amor é um pouco como a morte. É mau, mas necessário.
Estou morta…
Adoro-te…
Merda!
Dois males de uma só vez! É um pouco demais!
Queria esquecer-te.
Queria deixar de amar.
Assumir o meu papel de morta a tempo inteiro.
Estou farta!
Quero arranjar um morto jeitoso.
Não o quero amar.
Quero fodê-lo até que um de nós parta o esqueleto.
Quero divertir-me!
Quero aproveitar esta morte até que não sobre mais morte para aproveitar.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

IV Capítulo

Acho que estou feliz.
É bom.
É diferente.
Olho para a minha vida, que nem vida é, e fico feliz.
Estou morta.
Morri no auge da minha juventude.
Morri virgem.
Não conheci nenhum país.
Não conheci mais de metade dos prazeres da vida.
Estou feliz.
Finalmente estou feliz.

É mentira.
É tudo uma grande mentira, mas eu gosto de mentir. AS mentiras são boas. São suaves. São simpáticas. Não magoam. AS mentiras são como os penso rápidos, não curam a realidade, mas ao menos evitam que ela volte a sangrar.
A minha vida foi uma mentira.
A minha morte também.
Eu fui uma mentira.
E tu também
Construí a minha vida em cima de mentiras e quando tentei acabar com elas, desmoronei-me. Morri. Mataste-me.
Cabrão! Odeio-te!
“Até parece que eu acredito!”
Claro que acreditas. Sempre acreditaste.
“Não sabes mentir.”
Tu também não.
E não sabias mesmo. Sempre que me tentavas mentir eu acabava inevitavelmente por descobrir a tua mentira.
Tinhas jeito para mentir. Pena que só servisse para os outros. Éramos demasiado parecidos, lembras-te?, e os teus pensamentos não eram segredo para mim. Descobria quando estavas a mentir pois no teu lugar mentiria exactamente sobre a mesma coisa.
Estou feliz.
Estou frustrada mas estou feliz.
Tão triste…
Uma morta frustrada, mas feliz.
Estou morta. Estou feliz. Etc…
Talvez esteja feliz porque estou morta ou talvez esteja morta porque estou feliz. É tudo muito complicado. Não me peças para explicar, estou cansada. Acho que os vermes já começaram a consumir o pouco cérebro que alguma vez possui. Acho que o vomitaram. Não prestava.

Lembras-te da minha morte?
Eu lembro-me…
Estava feliz. Tu também.
“Não estava nada!”
Cala-te e deixa-me lembrar!
Foi uma morte injusta.
Não, foi estúpida
Não merecia morrer.
Dizem que os maus não morrem… Isso é mentira! Eu era má e morri. Não tanto como tu, claro! Eras insuperável! Mas conseguia ser má, especialmente quando estavas longe. Queria vingar-me da distância. Era má. Mas tu ainda eras pior.

Não acontece nada aqui em baixo.
Estou parada.
Não me quero mexer.
Deixo esse trabalho para os vermes, eles que se mexam se quiserem.
A vida é uma merda.
A morte também.
Eu gosto da vida.
“Eu não.”
Porque é que tens que estar sempre a contrariar-me?
“Porque me apetece!”
Eu sei que gostas da vida.
“Sabes lá tu!”
Cala-te e deixa-me!
“Isso querias tu!”

Os dias são cada vez mais sossegados. Não há pressas, não há para onde ir. Não há horários a cumprir, não há nada.
Apenas silêncio.
Silêncio.
É bom.
É sossegado.
É diferente.
Nunca tivemos um momento de silêncio ou sossego. Não conseguíamos. Era impossível. Havia sempre algo a dizer, um som, uma música. Era impossível estarmos calados. Quando se fala muito, cerca de 90% do que se diz é lixo verbal. Mas nunca connosco. Nada do que dizíamos era desprovido ou carenciado de significado. Cada palavra, cada som, cada gesto tiveram uma história. Foram especiais.
Tudo era especial.
Dentro da regra nós fomos a excepção.
Talvez porque quebrámos todas as regras.
E todas as excepções.
Não consigo pensar.
“Se conseguisses é que me espantavas!”
Porque é que és assim?
“Porque me apetece!”
Não vês que te amo? Que cada dia que passa mais o meu coração te pertence?
Quero sair daqui.
Deixar os vermes.
Este corpo que nunca me agradou.
Este mundo inferior e frio que por vezes combina demasiado comigo.
Quero voltar a dar os teus passos.
Correr pelas ruas vazias só pelo prazer de correr.
Sem pressas…
Chamar por ti só porque sei que não me poderás ouvir.
Devolve-me a vida.
Dá-me um sinal.
Algo…
Deixa-me voltar a viver.
Quero tempo.
Tempo para mim.
Tempo para ti.
Tempo para morrer.